polifonia sem fio

Percepção e Representação de Mundo

Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com

Querer uma coisa só

Lembro-me do poema do Gregorio Duvivier e percebo como é complicado não querer tudo. Com tanta gente correndo, não dá para ser olhado, não dá para ser olhante, vultos passam e quando tudo acabar vultos serão nossas últimas lembranças de uma vida que quis tudo e acabou em nada.


14048363.jpg

Sempre penso demais na vida e pensando bem nunca terei pensado o bastante. A idade mostra que nenhuma ideia é suficiente, sempre estaremos insatisfeitos com nós mesmos, nunca ninguém é responsável, sempre é a nossa cabeça, é sempre a busca por mais, mais não sabemos o que.

Com a idade também passamos a imaginar a morte, estar só ou acompanhado acarreta em morrer acompanhado ou só, tanto faz, a gente morre sozinho. Podem segurar a sua mão, mas você irá sozinho, qual será a última imagem lembrada? Talvez a pessoa que um dia soltou a sua mão ou você soltou a dela, nessas alturas tanto faz.

Ah, os pós-modernos, tão provisórios, tantas mãos para largar, na ausência das construções, consumo descartável, esforço sem suor. Não existe presente, vivemos o futuro, descartamos o agora, vivemos a ausência do amanhã.

Valorizamos o consumo que nada mais é do que devorar, ingerir e digerir, mandar para fora. E o nosso impulso autodestrutivo, as dores de cabeça, a falta não preenchida, as incertezas permanentes, tudo envolvido na insegurança de estar solitário e na solidão de estar inseguro.

Deixar a sucessão de reinícios para ficar um pouco mais é dormir no ponto, é deixar outras oportunidades, que também são dispensadas atrás de outras. Abraços são demorados, é dar as costas para o que não se vê e sentir ansiedade, querer ver o que vem do lado de lá, pós-modernos não abraçam.

Correndo não quer perder nada, mas vê o fim mais rápido, correndo vê tudo, mas não olha para nada. Ah, o olhar, aquela contemplação atenta, olhante e olhado, a fusão de se ver no olhar do observado e retornar a si mesmo, ah que experiência boa poder olhar.

13648_gg.jpg

Lembro-me do poema do Gregorio Duvivier:

“Querer tudo é não querer

nada é perceber que nada

é pior que tudo e qualquer

coisa é melhor que nada

é melhor do que não querer

tudo e querer uma coisa só

pois para ser feliz é preciso

querer uma coisa só e saber

deitar ao lado dela – quieto”

Percebo como é complicado não querer tudo, ser mal visto pelos olhos que fogem das fraturas. Com tanta gente correndo, não dá para ser olhado, não dá para ser olhante, vultos passam e quando tudo acabar vultos serão nossas últimas lembranças de uma vida que quis tudo e acabou em nada, porque quem quer tudo, não tem nada. Não podemos ter o mundo nas mãos, mas podemos criar o mundo dentro de nós, que é imenso, que nos faz sentir a imensidão, que deixa o agora bem mais feliz.

Olho para a cama e Marx sussurra “tudo o que é sólido desmancha no ar”.


Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com.
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/literatura// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Aline Vaz