polifonia sem fio

Percepção e Representação de Mundo

Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com

Enquanto Somos Jovens - A hiper-realidade da vida adulta

Não deixamos de ser o que representamos ser. Quando selecionamos parte de nós, também somos nós. Quando Jamie manipula a gravação de seu documentário não deixa de documentar.


e5.jpg

Enquanto Somos Jovens é um filme de Noah Baumbach (A Lula e a Baleia; 2005 e Frances Ha; 2012), estrelado por Ben Stiller, Naomi Watts e Adam Driver (Girls e Frances Ha), sobre todos nós, que vivemos uma hiper-realidade. Acreditamos tanto que somos adultos que nos tornamos adultos.

Jamie (Adam Driver) e Darby (Amanda Seyfried) assistem a aula de Josh (Ben Stiller), um cineasta de um documentário só, que há 8 anos tenta finalizar o segundo filme. O professor que não consegue abrir o powerpoint é abordado pelos alunos ouvintes, que elogiam a aula, principalmente, a abordagem sobre hiper-realidade, remetendo ao sociólogo e filósofo francês, Jean Baudrillard, sobre efeitos da comunicação e sentido que criam simulacros mais reais do que o real.

A partir daí inicia-se uma relação de admiração. Josh e Cornelia (Naomi Watts) abrem as portas para o novo, enquanto o jovem casal exalta o velho. E quem nunca achou a grama do vizinho mais verde? Quem nunca sussurrou com a nostalgia do desconhecido: ah, os outros tempos...

20150618_SP18_Enquanto-somos-Jovens.jpg

Noah Baumbach sabe que adultos não são seres superiores, perfeitos, responsáveis e maduros. A Lula e a Baleia mostra pais que não sabem tudo; Frances Ha mostra jovens adultos compreendendo a adultez. Enquanto Somos Jovens mostra recém-adultos buscando maturidade e adultos buscando a juventude, que todos teimam em esconder nos paradigmas da vida madura. Vivemos em um drama entre ser jovem e ser adulto, mas somos tudo isso, sempre teremos inseguranças, sempre ganharemos experiências.

Voltemos a hiper-realidade! Em uma contemporaneidade em que representamos nossas vidas em redes sociais, o que é verdade e o que é ficção? O que somos e o que mostramos ser? Para Josh essas respostas importam. Para a mesa que ouve seu surto de acusação a Jamie não. Afinal de contas, não deixamos de ser o que representamos ser. Quando selecionamos parte de nós, também somos nós. Quando Jamie manipula a gravação de seu documentário não deixa de documentar.

WhileWereYoung1.jpg

No fim não importa se somos velhos jovens, jovens adultos, reais, representados, o que vale a pena é a verdadeira experiência. Quando Josh sente que imita um adulto, ele é um adulto; quando ele mantém a produção de um documentário há quase uma década ele mantém um sentimento pelo passado.

Para finalizar, voltemos ao início do filme, em que as primeiras frases na legenda chamam a atenção para como não gostamos de jovens, como fechamos as portas para eles. Será que não gostamos do que deixamos de ser? Será que fechamos as portas para o que fomos, deixando de conviver com nós mesmos?

enquanto-somos-jovens-3.jpg

P.S Abandone a exibição do filme na frase de Josh: Somos pessoas diferentes. A última cena é absolutamente desnecessária. Noah Baumbach também erra.


Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Aline Vaz