polifonia sem fio

Percepção e Representação de Mundo

Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com

A vida social de pesquisadores invisíveis

Hora de tentar explicar a pesquisa que você altera todos os dias, quanto mais leituras, mais ideias, mais conceitos, mais confusão na sua cabeça. Se você tem que explicar a sua pesquisa bem naquela semana que você aumentou a bibliografia tudo pode piorar.


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Na maior parte da minha vida sou o tipo de pessoa que não quer encontrar conhecidos pelas ruas, que acha cansativo sorrir pelo caminho, mas sorri se encontra algum conhecido. Também sou o tipo de pessoa educada.

Depois que entrei para o mestrado a minha torcida para não encontrar conhecidos pelo caminho aumentou. Nunca entendem o que é mestrado, ninguém entende o que é dedicar-se à pesquisa. Bolsista da Capes. Melhor nem entrar no assunto, afinal, esses bolsistas são folgados, comunistas do mal.

E assim passo os dias, omitindo a Pós-Graduação da sociedade. E quando alguém, finalmente, sabe o que é um mestrado e pergunta sobre a sua pesquisa, tudo pode piorar. Hora de tentar explicar a pesquisa que você altera todos os dias, quanto mais leituras, mais ideias, mais conceitos, mais confusão na sua cabeça. Se você tem que explicar a sua pesquisa bem naquela semana que você aumentou a bibliografia tudo pode piorar. Era sobre o sujeito pós-moderno, depois sobre a modernidade liquida, agora sobre o sujeito hipermoderno. Era sobre a cidade, que agora é a cidade-ciborgue. Era sobre o flâneur, que agora é o ciber-flâneur. Era sobre o ciberespaço, agora não pode usar esse termo. Era sobre a cidade, mas também é sobre o hibrido cidade-sujeito. Tem Greimas, não pode ter Peirce. Tinha Bachelard, mas acho que vai ter Baudrillard. Queria Marc Augè, mas acho que não vai dar. Deslugar, entre-lugar, não-lugar, não confunda. Era sobre espaço, mas para isso tem que falar de paisagens, que é outra coisa. É sobre o habitar, mas para isso tem que compreender e possuir o espaço fílmico. É sobre cinema, mas sobre outras coisas também. É sobre olhar, mas também sobre ser olhado. É sobre realidade, mas ela não existe. Cinema é arte. Cinema é comunicação. Cinema é a sua pesquisa? Cinema argentino? Medianeras? Que filme é esse?

Sou Aline Vaz, pesquisadora. Entre artigos e congressos torço para não ser questionada no caminho para casa. Quando a sociedade te questiona, responder o orientador é a parte mais fácil.


Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com.
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