polifonia sem fio

Percepção e Representação de Mundo

Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com

Gregorio para quem gosta de chocolate ou para quem chora pelo leite derramado

Todo mundo espera pela melhor oportunidade, todo mundo chora pelo leite derramado, todo mundo precisa limpar a sujeira. No setor de limpeza todo mundo pode encontrar alguém que puxa papo sobre queijos (mesmo que nem todo mundo goste de queijos) e no fim você pode encontrar alguém para te ajudar a descascar os abacaxis.


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Gregorio Duvivier tem muitos inimigos, um pessoal aí que é contra o que ele escreve na folha, contra o que ele grava e publica no youtube, contra tudo o que é contra as próprias ideias de quem é contra. Não vou falar de política, de partidos, da bunda que cada uma tem a sua. Só que antes de todo mundo amar ou odiar o Gregorio, não dá pra negar: ele sabe usar as palavras (por isso tanto amor e tanto odio, cabe tantas palavras nisso tudo aí). Tom Zé disse que as palavras de Gregorio deveriam exalar alguma droga pesada, que atrai, vicia e nos toma. É assim, tem quem diga que as palavras de Gregorio são uma droga, que devem ser ilegais; tem quem consuma como chocolate na droga da TPM, chorando pelo leite derramado.

Estou na TPM e preciso de chocolate... ou de um poema do Gregorio. Pego meu livro - que é meu porque comprei, mas é do Gregorio porque ele escreveu (ligue os pontos poemas de amor e bigbang) - com detalhe na capa que brilha no escuro e dentro uma dedicatória "lindos óculos (e olhos!) Beijão do Gregorio Duvivier". Abro em alguma página e devoro aquele poema que é melhor do que chocolate, porque chocolate acaba.

"se o leite desnatado por acaso caísse

da sua mão no chão da seção de laticínios

bastava para eu perguntar seu nome e fazer

alguma piada envolvendo a expresão chorar

pelo leite derramado e nós dois teríamos

uma longa-vida eu e você mas você já está

no setor de limpeza e eu penso que se a água

sanitária espirrasse no seu vestido eu poderia

dizer sou um advogado e isso vale um processo

ou se você tivesse dúvidas quanto à validade

de um queijo minas eu sei tudo sobre queijo

minas ou a madureza de um abacaxi basta

puxar uma folha da coroa mas agora

é tarde você já está no caixa passando produtos

que apitam como um eletrocardiograma"

Era o poema que eu precisava para lembrar que todo mundo espera pela melhor oportunidade, que todo mundo chora pelo leite derramado, que todo mundo precisa limpar a sujeira. No setor de limpeza todo mundo pode encontrar alguém que puxa papo sobre queijos (mesmo que nem todo mundo goste de queijos) e no fim você pode encontrar alguém para te ajudar a descascar os abacaxis. E apesar de tudo, o coração bate, mesmo que por aparelhos. Hoje os aparelhos são tão nossos amigos.

A oportunidade pode nunca chegar, mas isso eu não sei resolver, quem sabe na próxima ida ao supermercado, no setor de chocolates.


Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com.
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