polifonia sem fio

Percepção e Representação de Mundo

Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com

Além do Ponto de Caio Fernando Abreu e outras coisas minhas ou nossas

A gente quer ser o melhor, quer ser a melhor parte de nós, mas não dá para ser só o melhor, a gente não é só uma parte, tem as inseguranças, o dente quebrado que surge no sorriso, não dá para esconder, a gente sorri.


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"Chovia, chovia, chovia e eu ia indo por dentro da chuva ao encontro dele, sem guarda-chuva nem nada (...)." Assim chego em Além do Ponto, entre tantos outros contos de Morangos Mofados. Sempre estou na chuva, sem guarda-chuva nem nada. Também estou embaixo do sol quente, aquele que queima e deixa meu nariz vermelho. O frio também deixa o meu nariz vermelho, combinando com as bochechas envergonhadas quando bato em sua porta.

Quem vai Além do Ponto não se protege, torna-se vulnerável e ansioso, enquanto pensa em bater na porta, porque o amor convidou para dar uma passadinha por lá, quem sabe tomam um café, conversam embaraçados, desembaraçam e assistem um filme, enquanto a roupa seca, perdem algumas cenas.

"Teve uma hora que eu podia ter tomado um taxi, mas não era muito longe (...)." Queria viver o percurso, sentir o deslocamento, o frio na barriga, a espera, a incerteza e a esperança de bater na porta, imaginar... e ela se abre com um sorriso do outro lado: entre logo, está muito frio aí fora.

"Não queria que ele pensasse que eu andava bebendo, e eu andava, todo dia um bom pretexto, e fui pensando também que ele ia pensar que eu andava sem dinheiro, chegando a pé naquela chuva toda, e eu andava, estômago dolorido de fome, e eu não queria que ele pensasse que eu andasse insone, e eu andava, roxas olheiras, teria que ter cuidado com o lábio inferior ao sorrir, se sorrisse, e quase certamente sim, quando o encontrasse, para que não visse o dente quebrado e pensasse que eu andava relaxando (...)."

A gente quer ser o melhor, quer ser a melhor parte de nós, mas não dá para ser só o melhor, a gente não é só uma parte, tem as inseguranças, o dente quebrado que surge no sorriso, não dá para esconder, a gente sorri. Bagagem que todo mundo carrega cheia da vida, de morte, a espera do próximo trem para embarcar, do passageiro que irá sentar ao lado e comentar que a mala é bonita - mas já está fora de moda – não importa, continua bonita.

"Tudo ficara muito confuso, ideias misturadas, tremores, água de chuva e lama e conhaque no meu corpo sujo gasto exausto batendo feito louco naquela porta que não abria, era tudo um engano, eu continuava batendo e continuava chovendo sem parar, mas eu não ia mais indo por dentro da chuva, pelo meio da cidade, eu só estava parado naquela porta fazia muito tempo (...)."

Continuo parada na porta, a chuva interditou o caminho de volta, nem queria voltar mesmo, queria bater na porta, queria entrar, dizer que senti saudades, pedir desculpas pela lama, posso usar o banheiro? Claro, pegue essa toalha, tome um banho, o chuveiro está quentinho, vou fazer um café enquanto isso. (TocToc) Se estiver dormindo vai demorar para atender, tem o sono pesado, pode estar dormindo, não quero incomodar, vou bater de leve.


Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com.
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