polifonia sem fio

Percepção e Representação de Mundo

Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com

Nautilus: Entre 2015 e 20.000 Léguas Submarinas

Nautilus, nova montagem da Vigor Mortis, é uma peça extremamente atual, que abre a escotilha de Júlio Verne e representa o anacronismo da sociedade contemporânea.


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Em Nautilus, nova montagem de Vigor Mortis, Paulo Biscaia Filho abre a escotilha do submarino de Júlio Verne e conhecemos o capitão Nemo (Ed Canedo) que em 1869 embarcava em 20.000 Léguas Submarinas.

Habitamos o submarino com nosso olhar de 2015, guiado pelas personagens contemporâneas Selena Theo (Michelle Rodrigues) e Janaína Kreuz (Rúbia Romani). A primeira é uma geóloga, apaixonada por suas pesquisas e que sonha encontrar o centro da terra. A segunda é uma documentarista financiada pelo pai, um corrupto dono de uma companhia pretrolífera.

Em busca de petróleo e de imagens para um filme, Selena e Janaína encontram o submarino, despertam Nemo e entram em conflito entre a tradição e a tradução. Nemo não compreende as conquistas femininas e Selena e Janaína ao tornarem-se terroristas encontram a si mesmas nessa viagem.

Ultrapassando uma homenagem ao clássico literário, Biscaia retorna ao passado para que possamos refletir sobre o presente. Quando um homem com mais de 100 anos, que passou grande parte desse tempo em uma câmara criogênica retorna em 2015, os valores são questionados, as guerras ainda existem e as variações linguísticas aumentam os ruidos comunicacionais onde cada um fala para si mesmo a própria língua.

Os personagens de Nautilus são interessantes ao passo que se transformam. Nemo aceita a convivência com as mulheres em seu submarino. Selma é forte, mas também precisa abrir sua escotilha fechada no peito. E a personagem que menos gera expectativa, promove o inesperado. Uma patricinha, como é chamada por Selma, revolta-se contra o pai e ataca sua fonte de poder. Janaína é carismática.

A peça é um mergulho em debates atuais sobre machismo, corrupção, disputas de poder... Janaína também levanta a questão do documentário como representação da verdade, com a câmera na mão o tempo todo, onde se filma tudo que se quer e manipula-se como se quer contar.

Considero que Nautilus é uma peça extremamente atual, que grita aos nossos olhos e ouvidos que estamos imersos em 2015, com valores que às vezes parecem tão anacrônicos ao ponto de criar a impressão de que vivemos em 20.000 léguas submarinas, congelados como Nemo, sem estabelecer comunicação com o mundo, por falta de léxico ou paixão pelo o que se busca.


Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com.
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