polifonia sem fio

Percepção e Representação de Mundo

Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com

MEDIANERAS: POR UMA VIDA EM PLONGÉE

É no inesperado do cotidiano que os personagens de Medianeras se encontram, no vazio da solidão, na brecha do desejo de olhar e ser olhado que é a janela. Na multidão os personagens tornam-se parte do mundo, habitam a cidade morfológica e semântica, ressignificada pelo encontro.


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Tem coisa boa que é planejada, no geral coisas boas materiais são planejadas, guardar dinheiro para comprar uma viagem, um carro, uma casa, os sonhos das vitrines. O que não pode ser planejado é o pleonasmo da experiência vivida, os encontros do paradoxo do individualmente coletivo, as amizades, os amores, no plano do imediato, aquilo que se convenciona como irracional, as utopias, os sofrimentos, os risos, a emergência dos desejos, dos afetos, dos vínculos, acidental e subjetivamente, a graça de estar vivo.

É preciso apropriar-se do espaço, habitar o mundo, a casa e suas extensões, as janelas, as ruas, os outros, apropriar-se dos objetos e dos sentidos. Deve-se poetizar o mundo com os rastros dos encontros, do espontâneo da vida cotidiana. Planos são comedidos, vivem para dentro, o imediatismo do dia a dia é para fora, o encontro com o próprio encontro.

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Em Medianeras: Buenos Aires na Era do Amor Virtual (Gustavo Taretto; 2011), filme argentino em que Martin (Javier Drolas) e Mariana (Pilar López de Ayala) são vizinhos de medianeras, caminham pelas mesmas ruas, mas nunca se encontram, é no inesperado do cotidiano que os personagens se olham, no vazio da solidão, na brecha da janela, no corpo de Mariana que se joga para fora. Nessa brecha do desejo de olhar e ser olhado que é a janela, encontra-se o habitar. Na multidão os personagens se identificam, tornam-se parte do mundo e abandonam o espectador à solidão de observador.

O filme repleto de enquadramentos em contra-plongée determina a experiência do pertencimento na metrópole em sua penúltima cena que, enfim, se dá em plongée. É no mergulho que Mariana encontra Martin e o espectador permanece olhando para os personagens, agora multidão. Martin e Mariana, por meio do corpo, alteram o estado das coisas no plano do subjetivo, de viver a cidade poética, identificando-se com o estranhamento que sentem. Sem precisar de diálogos, identificam-se na fusão do ver-se no olhar do olhante.

Sem planejamento, o encontro de Martin e Mariana ocorre na abertura do olhar, enquadramento (janela) que pertence ao cotidiano da personagem, mas que no acaso do banal abre-se para um novo mundo, uma cidade agora sentida, morfológica e semântica, ressignificada pelo encontro.

No canto do mundo encontramos nossos medos, no habitar exotópico enfrentamos nossas inseguranças. No canto do mundo planejamos nossos sonhos, para fora vivemos os sonhos que ainda vamos ter. O canto do mundo é contra-plongée, o encontro com o mundo é plongée.


Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com.
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