polifonia sem fio

Percepção e Representação de Mundo

Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com

MISTRESS AMERICA: toda história é uma história de traição

A personagem de Greta Gerwig vem sendo comparada a sua protagonista de Frances Ha com certo exagero. A espontaneidade de Frances transpõe o amor pela vida como ela é; a espontaneidade de Brooke revela uma urgência desesperadora.


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Em Mistress America, filme roteirizado por Greta Gerwig e Noah Baumbach, Tracy (Lola Kirke), uma caloura universitária em Nova York, sonha ser uma escritora aceita pelo clube de literatura da universidade e deslumbra-se com o estilo de vida de Brooke, a filha do futuro marido de sua mãe. Para Tracy a adulta de 30 anos vive como uma mulher jovem deve viver. Porém, Brooke é paradoxa, ela faz de tudo e nada. Sem finalizar as ideias afirma que elas são roubadas por outras pessoas, mas abstratas, como os sentimentos, as ideias não podem ser roubadas, apenas inspiradoras.

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O filme afirma que “toda história é uma história de traição”. Brooke adverte que não existe traição quando somos jovens e critica os amigos de 18 anos que deveriam estar tocando um no outro o tempo todo. Quando se é jovem há pouco tempo, talvez, não saibamos que é preciso experimentar, trair todas nossas certezas para que possamos ser jovens há bastante tempo com a certeza de nossas incertezas. Em um momento de insegurança Brooke encena um gesto que indica o ato de rebobinar, mas não podemos voltar no tempo, logo devemos vivê-lo, tocar em todas as oportunidades o tempo todo.

A personagem de Greta Gerwig vem sendo comparada a sua protagonista de Frances Ha com certo exagero. A espontaneidade de Frances transpõe o amor pela vida como ela é; a espontaneidade de Brooke revela uma urgência desesperadora em sua fala acelerada, que transmite a velocidade que excita a vida, mas também os riscos de se atropelar em si mesma.

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Tracy, aspirante a escritora, deslumbra-se com Brooke, mas logo percebe que além das noites animadas há certa decadência em sua vida e aproveita os conflitos da amiga para ficcionalizá-la. A traição da escritora é transformar aquilo que vivencia em uma história de mentira. A traição dos leitores é transformar a ficção em uma história de verdade. Logo, nos traímos ao imergir em narrativas que não são nossas e traímos o realizador com nossas interpretações; absorvemos o que observamos e nos apropriamos de sugestões narrativas, ressignificando personagens ao nosso próprio interesse (suscitando o poder da identificação da arte vivida e ficcionalizada).


Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com.
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