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Percepção e Representação de Mundo

Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com

Jessica Jones: o heroísmo na libertação de um relacionamento abusivo

Infelizmente, podemos esbarrar com Killgrave a qualquer momento. Ele está por aí controlando pessoas em relacionamentos opressores e violentos. Homens manipulam suas companheiras, as fazem sentir culpadas, são estupradas, mas assim como na série ninguém quer ouvir as vítimas: "ninguém detém de poder para te controlar, a culpa é sua".


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Jessica Jones, série adaptada dos quadrinhos da Marvel em parceria com a Netflix, tem como protagonista uma mulher que precisa focar em sua força física e mental para libertar-se de um relacionamento abusivo. Homens são vítimas de relacionamentos abusivos, mas mulheres são mais ainda. A série mostra o relacionamento abusivo entre os irmãos que moram no prédio de Jones, nesse contexto Ruben (Kieran Mulcare) é vitima de sua irmã Robyn (Colby Minifie), Trish (Rachael Taylor), a famosa apresentadora de um programa de rádio, também é vitima do relacionamento com a mãe e o protagonismo das relações abusivas fica por conta de Jessica Jones (Krysten Ritter) e o vilão Killgrave (David Tennant).

Infelizmente, podemos esbarrar com Killgrave a qualquer momento. Ele está por aí controlando pessoas em relacionamentos opressores e violentos. Homens manipulam suas companheiras, as fazem sentir culpadas, são estupradas, mas assim como na série ninguém quer ouvir as vítimas: "ninguém detém de poder para te controlar, a culpa é sua".

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Killgrave se vitimiza, diz que pode mudar se Jessica ficar, quer responsabiliza-lá pela sua redenção; muitos ficam, acreditam que podem melhorar o parceiro, que é questão de tempo e o seu lado bom surgirá, pois o amor salva. O amor dentro de você deve ser a sua salvação, deve te deixar ir para longe daquele que nunca vai te amar, mas te possuir, pois ele nunca será um amante, mas um obsessivo, que não se preocupa, mas te controle.

A série ganha muito ao se aproximar da narrativa do cotidiano, os poderes dos personagens todos nós temos em escalas menores, somos manipulados e manipuladores, usamos das palavras para alcançar nossas vontades, precisamos de força física para lutarmos contra nossa mente ao levantar da cama para enfrentar os vilões do dia a dia, precisamos nos fortalecer para que não nos machuquem, não perfurem nossa pele em busca de roubar nossas almas.

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Mesmo com poderes os personagens tem fragilidades, Jessica bebe o tempo todo para aguentar a vida, Luke Cage (Mike Colter) não pode ter sua pele machucada, mas seu coração está destruido pela morte da esposa. Nos identificamos com os personagens que lutam entre a força e a fraqueza que os habitam. Não podemos deixar que a fragilidade nos aprisione em momentos trágicos, devemos encontrar a força para lutar contra as tristezas, contra nossos medos, nossas dores, nossas perdas, relações que nos corroem na perda da auto-estima e do auto-controle; é um processo que à moda de Jessica Jones é preciso lutar.

Representar os relacionamentos abusivos sem que a vítima sacrifique-se a salvar a relação em prol de um final feliz é um grande passo dialogando com a vida em sociedade. Sinto esperança que possamos compreender que seguir sozinho é também um final feliz. Você não precisa se responsabilizar pela redenção de Killgrave, em uma luta diária e sofrida você precisa acabar com ele (em sua mente).


Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com.
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