polifonia sem fio

Percepção e Representação de Mundo

Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com

Ligações Perigosas: A cumplicidade do olhar da câmera na adaptação da violência sexual

A apologia a violência sexual é clara nas escolhas de ângulos, nos corpos dos personagens, no desrespeito com o espectador que se vê como um voyeur dentro de uma cena que tenta seduzir ao passo que expressa violência travestida de prazer.


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Um clássico da literatura do século XVIII, "Les liaisons dangereuses" (Choderlos de Laclos; 1782), acaba de ser adaptado para a tevê aberta, por uma grande emissora que deveria rever o clássico com os olhos da contemporaneidade, usar a linguagem televisiva para produzir uma reflexão crítica dos "valores" que lutamos para que sejam desconstruidos em prol da igualdade de gênero, da liberdade de expressão, por respeito e humanidade. Justamente, por meio da liberdade de expressão que a Rede Globo poderia adaptar uma história do século XVIII traduzida pelo olhar da atualidade, com um olhar crítico, com uma estrutura de sentimento (Raymond Williams), enquanto um sintoma social vivenciado em determinada época e compreendido em um dito presente, pois uma obra ganha sentido pelo tempo em que é lida.

A adaptação televisiva errou ao criar uma cena de romantização do estupro, uma cena em que a violência torna-se um ato de sensualidade, que pretende causar prazer e seduzir. A apologia à violência sexual é clara nas escolhas de ângulos, nos corpos dos personagens, no desrespeito com o espectador que se vê como um voyeur dentro de uma cena que tenta seduzir ao passo que expressa violência travestida de prazer.

Não sei se em uma tentativa de justificar-se, mas o ator Selton Mello publicou um texto em seu instagram, que foi também compartilhado pela atriz Alice Wegmann, ambos os atores que interpretaram a polêmica cena, apontando as censuras que o livro sofreu, sendo proibido em 1823 e novamente censurado em 1865. Ele completa que a obra é uma leitura que a gente ama e odeia, sente repulsa e atração, que ninguém fica indiferente a obra e que ainda hoje, há mais de 200 anos, ainda exerce poder sobre os pensamentos e sentimentos do público.

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Selton Mello é inteligente e escreve um texto aparentemente simples, sútil, mas que em suas entrelinhas grita ao público que a polêmica da cena se dá pela grandiosidade da obra que provoca os pensamentos e sentimentos do espectador que ainda reage mal a narrativa como em seus anos de censura. Sim, Selton Mello, grandes obras provocam inquietações, mas as inquietações devem ser produtivas para as transformações sociais e não produzir insatisfação por alimentar os crimes reproduzidos há séculos. A repulsa do público pela cena de violência sexual não se dá pela obra literária, se dá pelas escolhas omissas de filmagem para uma cena que no século XXI deveria ser um protesto contra a violência sexual.

A obra literária tem a sua própria linguagem e a tevê tem a sua, adaptar não faz sentido quando apenas transpõe um discurso de uma linguagem para outra. As adaptações devem ser traduções questionadoras. A série que adapta a cena do livro poderia usar recursos do audiovisual para criticar um estupro, sem precisar de palavras, a crítica poderia se dar por posicionamentos de câmeras, por exemplo. Ao ler um romance o leitor cria a sua subjetividade imagética à partir de como uma história lhe é contada, ao ser carregado para a tela as significações são construídas não somente pelo o que vemos, mas como vemos. Saber criar um roteiro crítico não é trabalho da obra literária que originou a adaptação, é trabalho de profissionais do audiovisual que deveriam ser conscientes e engajados. Cadê a preocupação social de uma empresa de comunicação e seus profissionais?

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Enfim, essa reflexão é por uma tevê de olhar crítico, por uma câmera que respeite seu espectador e viva em sua época, que as personagens femininas não sintam prazer ao serem silenciadas pelas mãos de estupradores, que não sejamos silenciadas pela câmera de realizadores cumplices da violência sexual, que a nossa luta não seja hostilizada pela arte, lugar que deveria potencializar questionamentos, rupturas e transformações. Olhar para um clássico é questionar o discurso do passado como compreensão do próprio presente. Nosso presente ainda está longe de ser o futuro do século XVIII.


Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com.
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