polifonia sem fio

Percepção e Representação de Mundo

Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com

Que horas ela volta? (Anna Muylaert; 2015): a casa que oprime o habitar

Jéssica mostra a sua visão crítica como instrumento de mudança social que pode redefinir os lugares e deslocar as barreiras, não à toa ela pretende estudar arquitetura, pois é nos espaços fisicamente arquitetados que se encontram os espaços arquitetados socialmente.


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Que horas ela volta? (Anna Muylaert; 2015) é um filme de cômodos, um filme de lugares estabelecidos por barreiras simbólicas. A senzala é ressignificada pela porta da cozinha, pelo quarto da empregada, pela figura da mucama contemporânea à moda de 1.500, que mesmo vivendo no mesmo lugar dos patrões não habita a casa, já que habitar é apropriação do lugar o constituindo em espaço; Val não apropria-se da casa em que mora, que se configura como local de trabalho e não em um lar.

Quando falamos que se trata de um filme de cômodos pensamos nos lugares da casa pelos quais Val transita, mas não pertence. Também, remetemos ao lugar cômodo que cada personagem se encontra e que é rompido pela chegada de Jéssica, que é filha de Val, não é empregada e não é patroa, vive em todos os cômodos da casa, do quarto da empregada ao quarto de visitas. Jéssica não se acomoda nas barreiras sociais arquitetadas pela casa que se opõe em lugar de morada e de trabalho.

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Os deslocamentos de Jéssica provocam mal estar tanto em Val, que internaliza uma falta de auto estima recorrente de padrões adeptos da escravidão, quanto na família dona da casa em que o patriarca tenta reproduzir o assédio sexual escravagista. Jéssica é filha da empregada, mas os donos da casa não são seus patrões. Ela busca o seu próprio espaço, questionando as barreiras que tentam lhe impôr. Val diz que mora no serviço, Jéssica enfatiza que ela mora no quarto dos fundos da casa dos outros; morar para Val significa servir os donos da casa, o que é visto por Jéssica como inferioridade, não da vontade de ser superior, mas de não ser melhor nem pior, de conviver em igualdade, que não sejamos separados por uma casa que impõe que cada um saiba seu lugar, para alguns um lar, para outros um espaço de servidão. Jéssica mostra a sua visão crítica como instrumento de mudança social que pode redefinir os lugares e deslocar as barreiras, não à toa ela pretende estudar arquitetura, pois é nos espaços fisicamente arquitetados que se encontram os espaços arquitetados socialmente.

Percebe-se a crise de pertencimento que ocorre nas novas gerações, Fabinho, o filho dos patrões dorme no quarto de Val e Jéssica dorme no quarto de visitas. Em uma cena Fabinho sai do quarto de Val entrando na cozinha e Jéssica sai da cozinha para o espaço da casa dos patrões. Fabinho tem mais afeto pela empregada do que pelos pais ausentes, no entanto Jéssica não foi criada por Val, ambos os pais deixam de dar afeto aos filhos para dar-lhes dinheiro, todos estão trabalhando enquanto os filhos crescem e procuram seus próprios lugares, apropriando-se de espaços redefinidos por novas gerações que precisam confrontar as barreiras sociais para que a câmera do cinema possa um dia olhar para Val do mesmo ângulo que olha para todos os outros personagens.


Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com.
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