polifonia sem fio

Percepção e Representação de Mundo

Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com

Victoria (Sebastian Schipper; 2015): o ponto de vista do (des) pertencimento

Em Victoria somos transformados pela experiência do sensível da câmera-olho, em uma madrugada em Berlim, na qual não flanamos pela tela do cinema, mas mergulhamos no espaço fílmico.


Victoria.jpg

Victoria (Sebastian Schipper; 2015) é um filme alemão gravado em plano sequência, em que a imigrante espanhola, interpretada por Laia Costa, ao sair de uma balada em Berlim, encontra um grupo de jovens alemães, até então desconhecidos para ela. Trata-se de um filme de experiências, um filme que afeta a condição do sensível, que não me permitiu escrever qualquer coisa a seu respeito nos dias próximos ao meu contato com a obra. Eu precisei o digerir com calma, acomodar os meus sentimentos para, talvez, agora estar pronta para transmitir nesse texto um pouco do que eu senti, um pouco do lugar para qual me transportei.

O imigrante é um sujeito que vive no "entre", que pertence sem pertencer. No seu lugar de origem, é visto como aquele que deixou esse lugar, que não pertence mais, pois é ressignificado pela partida e apropriações do novo lugar de morada. No lugar para o qual ele vai, é visto como um estrangeiro, que está e não é, que não é acomodado, é visto em trânsito.

Victoria 2.jpg

A personagem Victoria é uma imigrante que escolhe viver em Berlim por não pertencer ao lugar de sua origem, viveu anos em uma escola de música e de repente é confrontada com o fato de não pertencer àquele lugar, de não ser reconhecida como pianista. Em busca de um pertencimento, do encontro com uma identidade que lhe foi tirada ao passo que não podia se reconhecer como aquilo que um dia foi, ela busca apropriar-se de um espaço que também não a reconhece, que não consegue se comunicar nem com a sua língua nativa, o espanhol, nem com a língua do novo país, o alemão, em que é preciso uma terceira língua, o inglês. Quando os jovens alemães olham para ela, a inserem no grupo e prometem mostrar como se vive em Berlim. Victoria sente-se parte, é reconhecida, olha e é olhada, sente o pertencimento.

Na minha cabeça, que vive em uma sociedade machista, fui confrontada pela tensão de que algo ruim iria acontecer com Victoria por ela ser mulher, por estar andando com homens desconhecidos; sim pensei que ela seria violentada. Logo, me condenei por esse pensamento imposto pela opressão que sofremos. O filme torna-se admirável ao não alimentar esse pensamento, não colocar a mulher como vítima, punida por seguir suas vontades. Não são homens e mulheres em oposição, são jovens que querem se conhecer, que interagem, que querem se divertir e que cultivam afetos.

Victoria 3.jpg

A ruptura na narrativa se dá ao passo em que torcemos pelos ladrões, em que estamos do lado marginal da sociedade, aquele que não pertence por não seguir as regras do espaço em que vive. O lado bom e mau depende do ponto de vista: o ponto de vista da câmera, o nosso ponto de vista; o ponto de vista da narrativa é do espectador ao lado de Victoria, com quem a câmera sempre está junto, com quem sempre estamos juntos. Somos a câmera, não estamos em Victoria, estamos com Victoria, nosso olhar é diegético, somos cúmplices, somos fugitivos, aceitamos caminhar com os desconhecidos, cultivamos afetos por eles, nos tornamos parte da narrativa e, na fratura do inesperado, vemos nossos sentimentos se transformarem com as personagens.

Ao fim da exibição, somos liberados das experiências de Victoria, voltamos a pertencer ao nosso espaço, agora transformado pela experiência do sensível da câmera-olho, em uma madrugada em Berlim, na qual não flanamos pela tela do cinema, mas mergulhamos no espaço fílmico.


Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Aline Vaz