polifonia sem fio

Percepção e Representação de Mundo

Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com

Menino do Cinco: a classe média não desce pro play

A classe média tem medo de tudo que pode colocar sua "vida média" em risco, ela quer ficar confortável dentro de casas que são verdadeiras prisões de luxo. A classe média é uma criança mimada que não aceita perder a brincadeira, se torna egoísta, solitária e entediada, porque quem não sabe brincar, não desce pro play e se fecha em seu mundinho com brinquedos decorativos, sem vivência, nem completude.


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Uma classe que vive uma rotina média, que tem um emprego médio, que tem ensino médio e até graduação, acredita ser interlectual lendo livros medianos, adora auto-ajuda, tem gostos medianos, não gosta de cultura popular, acha funk um desrespeito e também não ouve música clássica, gosta de consumir pra se sentir rico, mas é pobre de consumo consciente.

A classe média tem medo de tudo que pode colocar sua "vida média" em risco, ela quer ficar confortável dentro de casas que são verdadeiras prisões de luxo, a classe média tem problema de auto-estima, quem é a classe média?

Ela é enclausurada pelo emprego que não a faz feliz, mas a faz acreditar que felicidade se compra. Há diferença entre estar feliz e estar satisfeito, felicidade é instantânea e se compra mesmo, satisfação é completude. A classe média compra o tempo todo, ela quer mais, pois não sente-se completa.

No curta-metragem Menino do Cinco (Marcelo Matos de Oliveira; Wallace Nogueira; 2002) o garoto do apartamento do quinto andar rouba o cachorro do menino da rua que pede, que implora, mas não tem seu cão de volta. Na clausura do prédio de classe média, com grades predominando a arquitetura, o menino do cinco vive rodeado de brinquedos, solitário e entediado, enquanto o pai trabalha o dia todo. O menino da rua brinca com outras crianças, tem um animal de estimação, é roubado, mas ninguém vai defendê-lo, afinal, a classe média e branca é vitimizada, o menino pobre e negro sempre será julgado; a classe média precisa viver presa, porque existem pessoas livres, porque temos crianças que brincam na rua, porque temos jovens que se encontram nas praças, porque temos pessoas desconhecidas que andam pelas ruas a noite, todas "pessoas ruins", que ameaçam a segurança de uma vida média, "pessoas de bem" que vivem atrás de portões eletrônicos, câmeras e janelas com grades (falo de condomínios e não de presídios).

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A classe média se coloca como vítima ao passo que é oprimida pelos "ricos" e se oprime por medo da "pobreza". Se o menino do cinco não pode ficar com o cachorro, o menino da rua também não poderá ficar. O menino da rua quer o seu cão porque quer sua companhia, o menino do cinco quer o cachorro porque não quer perder para o menino pobre. O menino do apartamento tem sua casa invadida pelo dono do cão que vai em busca de resgatá-lo; a classe média tem o espaço invadido por aqueles que querem usufruir de seus direitos, os medianos precisam demonstrar quem manda, precisam impedir que os espaços sejam frequentados por todas as classes, shoppings proibem a entrada de jovens de pouco poder aquisitivo, condomínios são criados para que a convivência se restrinja a quem possa pagar pelo espaço (ou seja, todos convivem com pessoas da mesma classe), ônibus é sinônino de perigo, porque pobre (ainda) tem condição de utilizá-lo, o Prouni e as cotas não são bons projetos, porque coloca o filho da doméstica pra estudar com o filho da patroa, a universidade passa a ser um lugar inseguro. Toda vez que o espaço da classe média é invadido ela precisa encontrar uma maneira de mostrar quem manda, ela reclama no Facebook, bate panelas, veste camisas oficiais da seleção brasileira e pede até a ditadura militar, com conhecimento desfocado sobre o assunto.

O Menino do Cinco mostra como todos os dias cães são lançados pelas janelas da injustiça, abertas pelas barreiras sociais que exaltam a exclusão em prol da classe que se intitula do bem, mas que produz o mal toda vez que não inclui pessoas que antes de pertencerem a uma classe social, pertencem a um mundo onde todos deveriam ter os mesmos direitos e deveres, onde deveriamos saber compartilhar, não só bens, mas afetos. A classe média é uma criança mimada que não aceita perder a brincadeira, se torna egoísta, solitária e entediada, porque quem não sabe brincar, não desce pro play e se fecha em seu mundinho com brinquedos decorativos, sem vivência, nem completude.

Esclarecimentos: Uso aqui o termo classe média, mas não se ofenda, conceitos são generalizados e, claro, você pode ser a excessão, até mesmo o termo é questionável - Classe média também inclui os ricos, raramente alguém se declara rico, até mesmo pelo medo de se tornar alvo de violência (como se desfavorecidos não fossem alvos de violência) - Os termos "rico e pobre" aqui são sarcásticos, afinal, pobreza e riqueza vão além de poder aquisitivo - O texto contém ironia!


Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com.
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