polifonia sem fio

Percepção e Representação de Mundo

Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com

Clarice Falcão trocou a torta de amora por um chope

Clarice não quer ser mais um relógio de parede, ela não é propriedade pessoal de ninguém, critica os relacionamentos abusivos; ela nasceu pessoa, gente, não nasceu coisa, não é brinde de criança, nem presente de natal; ela é problema dela, pois ninguém a tem.


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Depois da fase da monomania, das tortas de amora, do desejo de pular do 8º andar, das malas cheias de memórias e todos os danos que se não fossem não seriamos nós, precisamos reerguer a autoestima, olhar para nós mesmos e concluir que o problema é nosso (que podemos superar). Clarice Falcão sobrevive, passa o batom vermelho e lança o novo CD "Problema Meu".

Na letra de Irônico, Clarice assume que já achou quem amasse de verdade e pensou que era muito bom amar, mas agora é melhor deixar pra lá, não expor o que pode ser constrangedor. Em Escolhi Você, Clarice escolhe ficar com ela mesma. Depois de tantas opções de amor, no fim sobra a gente mesmo, e depois de se machucar, se aceitar (se amar) é o maior problema (e a solução).

Clarice não quer ser mais um relógio de parede, ela não é propriedade pessoal de ninguém, critica os relacionamentos abusivos; ela nasceu pessoa, gente, não nasceu coisa, não é brinde de criança, nem presente de natal; ela é problema dela, pois ninguém a tem. Não estamos à venda, não pertencemos a uma pessoa, não vamos ficar numa estante, não temos registro de compra e venda, o nosso sim e as juras de amor valem para o momento dito, sem esse papo de eternidade. E quando um relacionamento acaba tem toda a vida para organizar, tem a política que não está favorecendo, tem todos os traumas desde o nascimento, os elefantes e as tantas formas de encarar que acabou.

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Clarice também fala de machismo: a figuração que fazemos na competição por um homem só, duas mulheres morrendo discretamente, matando-se por um discreto assassino, nos chamamos de vagabundas, de inimigas, apunhaladas pelo mesmo cara. Duas pessoas que se odeiam por amar a mesma pessoa deveriam marcar um chope, enquanto se amam mais.

Enfim, tudo isso é problema de Clarice, que não toma mais cianureto pelos 49 amores que já se foram e que é problema nosso por não fazer músicas sobre uma pessoa só, mas sobre todas nós, vagabundas: vamos deixar essa monomania autodestrutiva e sair para tomar um chope, que ninguém merece que nos joguemos do oitavo andar.


Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com.
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