polifonia sem fio

Percepção e Representação de Mundo

Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com

Para Minha Amada Morta: a imagem que afeta permanece viva

Uma narrativa do cotidiano que da pequenez do dia a dia, da experiência do olhar, das relações com pessoas e objetos, do paradoxo de presenças e ausências, das sensações sugeridas, revelam-se grandes tensões.


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“Para Minha Amada Morta” (Aly Muritiba) estreia comercialmente - dia 31 de março - com uma coleção de prêmios e festivais, entre eles o Festival de Montreal 2015 (Prêmio Zenith de Prata) e o 48º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (Prêmio da Crítica, Melhor Direção, Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Ator Coadjuvante, Melhor Montagem, Melhor Fotografia, Melhor Direção de Arte).

Não à toa o filme chega às telas com grande reconhecimento; trata-se da potência da imagem, como somos afetados por representações de algo que já foi e continua sendo ao proporcionar experiências estéticas - afetivas, seja pela imagem impressa das lembranças ou pelos objetos concretos: roupas, sapatos, joias, fotos e filmagens.

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Inicialmente, uma narrativa do cotidiano: uma casa que perdeu a mãe e esposa se reorganizando em meio às lembranças. A fratura ocorre por intermédio da imagem em movimento de uma fita cassete que enquanto reproduzida concretiza uma traição. A esposa morta revive nas filmagens que fizera com o amante. O marido é afetado pela imagem que torna a traição presente, as palavras e movimentos tornam-se vivos quando atravessam o olhar, atravessam uma história que é fraturada pela (re) produção de experiências imagéticas.

Os personagens são confrontados por imagens clandestinas. Motivado pelas imagens da traição, Fernando (Fernando Alves Pinto) entra na casa de uma família que é afetada pela imagem do corpo intruso. A adolescente, Estela (Giuly Biancato), quer ser fotografada pelo homem misterioso, quer ser olhada por ele; a mãe da família, Raquel (Mayana Neiva), em prol da representação matrimonial, nega as imagens trazidas por Fernando; e o amante, o pai da família, não consegue decodificar a figura incômoda do inquilino. Nando que considera Salvador (Lourinelson Vladmir) um intruso em sua vida, torna-se intruso na casa do antagonista: ambos são afetados pelo mesmo olhar, olhantes e olhados para e pela câmera da amada morta.

Enfim, “Para Minha Amada Morta” é uma narrativa do cotidiano que da pequenez do dia a dia, da experiência do olhar, das relações com pessoas e objetos, do paradoxo de presenças e ausências, das sensações sugeridas, revelam-se grandes tensões. Um filme que a primeira vista sugere conflitos gerados pelo desejo de vingança, mas que se revela na busca da compreensão, nas respostas que permitem enterrar sentimentos corrosivos.

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Ficha Técnica:

[Brasil, 2015, 113 min., drama]

Roteiro e Direção: Aly Muritiba

Elenco: Fernando Alves Pinto, Lourinelson Vladmir, Mayana Neiva, Giuly Biancato, Vinicius Sabbag e Michelle Pucci

Produtores: Antônio Junior, Marisa Merlo, Aly Muritiba

Direção de Arte: Monica Palazzo

Direção de Fotografia: Pablo Baião Montagem: João Menna Barreto

Trilha Sonora: Ruído por milímetro

Produzido por: Grafo Audiovisual

Distribuidora: Vitrine Filmes

Fotografia Still: Rosano M


Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com.
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