polifonia sem fio

Percepção e Representação de Mundo

Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com

Novo filme de Matheus Souza nos dá um abraço e diz: Tamo Junto

Tamo Junto fala de e com adultos que não sabem tudo (todos os adultos), adultos que são inseguros e por vezes sentem-se fracassados, adultos que descobrem que nem todos os turbilhões da adolescência acabam aos 18, 20 ou 25 anos, que não se trata da idade, mas das emoções, das buscas, dos encontros e das escolhas: é um filme além de habilidades técnicas, é uma história que nos abraça como um moletom velho e quentinho.


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(este texto contém juízo de valor e a identificação, por vezes, não permite o devido afastamento crítico)

Apenas o Fim (2008), Vendemos Cadeiras (2010), e Eu Não Faço a Menor Ideia do que Eu Tô Fazendo com a Minha Vida (2012) são comédias de Matheus Souza, diretor, roteirista, ator (do cinema e do teatro) e fã de séries como The Big Bang Theory e Community, referências para o seu novo filme, Tamo Junto (2016), filmado entre amigos, sem lei de incentivo ou patrocínio, que se vale de citações, estilos e clichês, rindo das próprias alusões, sem ocasionar prejuízos a compreensão (caso o espectador não tenha o mesmo repertório que Matheus Souza).

Trata-se de um filme que te abraça e diz “tamo junto”. Um filme que seguindo os padrões comerciais tem um casal hétero no cartaz, uma sinopse que protagoniza Felipe e Julia, amigos de colégio que se reencontram e desencadeiam uma história romântica, porém, Tamo Junto é também sobre amizade, e mais ainda sobre o reencontro dos amigos Felipe e Paulo Ricardo.

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Felipe termina um relacionamento abusivo e quer aproveitar a vida de solteiro, descobrindo logo que ser solteiro não implica em grandes quantidades de festas e sexo casual: perde a casa, perde os amigos com quem dividia a casa, desempregado e sem ter para onde ir reencontra Paulo Ricardo, retomando a amizade dos tempos do colégio; como se ainda vivessem naquela época, o quarto de Paulo Ricardo, que ainda é virgem, permanece igual e Felipe descobre que seu sentimento pela colega de escola, Julia, permanece o mesmo, ele ainda a ama, mas ela irá se casar com o namorado com quem iniciara o romance na adolescência.

Tamo Junto fala de e com adultos que não sabem tudo (todos os adultos), adultos que são inseguros e por vezes sentem-se fracassados, adultos que descobrem que nem todos os turbilhões da adolescência acabam aos 18, 20 ou 25 anos, que não se trata da idade, mas das emoções, das buscas, dos encontros e das escolhas (que nem sempre precisam ser as mais “corretas”). Os personagens são adultos com os quais nos identificamos, estão em constantes descobertas, porque nunca paramos de crescer, de voltar a ser quem éramos, de perceber que nunca deixamos de ser quem fomos; como Paulo Ricardo nunca paramos de procurar o clímax de nosso próprio enredo (e nunca deixamos de amar batata frita), como Julia queremos a estabilidade, mas queremos fugir de nossos empregos chatos e relações cômodas, como Felipe queremos curtir a vida, seja solteiro ou acompanhado de um grande amor (mesmo que não tenhamos dinheiro para o táxi). Tamo Junto é sobre todos nós, que nunca paramos de envelhecer (a nossa música favorita um dia será o “Roupa Nova no repeat" – talvez já seja), mas também nunca deixamos de acreditar que ainda não estamos velhos o suficiente (mesmo voltando da balada a tempo de assistir a série favorita, descansando os pés).

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Os roteiros de Matheus de Souza são ágeis, com muitos diálogos, riem e provocam o riso da melancolia do cotidiano e permitem a identificação; Tamo Junto é o trabalho mais maduro do cineasta (talvez por ser o mais atual, logo ele está mais “velho”, óbvio), tem uma estrutura narrativa muito próxima de Vendemos Cadeiras (Felipe e Paulo Ricardo lembram Eliezer e Fábio Jr.) e tem um domínio em sua finalização melhor que seus dois longas: Apenas o Fim e Eu Não Faço a Menor Ideia do que Eu Tô Fazendo com a Minha Vida. Tamo Junto pode não ser um filme de várias habilidades técnicas que provocarão rupturas nas narrativas cinematográficas, mas é lugar de pertencimento, lugar de acolhimento e cumplicidade, de moletons e filmes dos anos 90, de fracassos e faculdades que não nos garantiram um bom emprego ou o bom emprego nem era tão legal e desistimos dele e não sabemos mais o que queremos (ou sabemos, mas precisamos não saber outra coisa, porque a gente nunca pode saber tudo).


Aline Vaz

Doutoranda e Mestre em Comunicação e Linguagens, especialista em Cinema e graduada em Letras, pela Universidade Tuiuti do Paraná - pesquisadora no GP GRUDES - Desdobramentos Simbólicos do Espaço Urbano em Narrativas Audiovisuais gpgrudes.com.
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