polimorfismo cultural

A cultura transposta num polimorfismo de subversão cognitiva... pare, leia e transcenda!

Leandro Godoy

Sou o criador, editor chefe e escritor do site Cinema e Fúria. Gosto dos mais malucos exploitations, aos cultuados filmes de arte até ao mainstream do cinemão pipoca. Meus outros interesses são: odontologia, literatura e música.

A proposta: um extraordinário faroeste.

Este faroeste australiano de 2005, teve os grandes mestres do gênero como inspiração, ele tem a mão criativa de Nick Cave que demonstra toda sua versatilidade como artista, o músico escreve o roteiro deste filme com uma perspicácia e percepção fílmica extraordinária. Ele transporta o clima sombrio e a dualidade entre amor e ódio, loucura e sanidade, moral e pecado, e redenção e vingança de suas canções para este filme. Com uma direção concisa e bastante competente de John Hillcoat, eu tenho a ousadia de dizer, que esta é uma das obras mais interessantes e fascinantes feitas neste começo de século.


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Enquanto muitos diretores usam a violência para tentar dar alguma credibilidade e uma estilizada forçada nas suas obras, neste filme, ela é posta como sendo algo inerente dos seres humanos que vivem num ambiente hostilizado por misérias, ignorância e violência. Ao final do século XIX, a Austrália está subjugada pelo o império britânico que tentava levar sua cultura para os nativos australianos e dominar seu território, com isso a Inglaterra levou o caos e a violência para esta terra antes pacífica. Os militares de outrora que viviam sobre os privilégios do império tiveram que servir a rainha nesta proposta de ocidentalizar esta terra, então tiveram que se mudar para a Austrália para comandar exércitos ou serem comandados, lutando contra aborígenes corajosos e hostis que davam a vida para defenderem sua cultura milenar e seus estilos de vida naturais.

Neste ambiente, alguns oportunistas se aproveitavam deste caos e formavam grupos para cometer crimes ocasionais e fazer trabalhos como mercenários, roubando as residencias dos ricos ou caçando aborígenes rebeldes para o exército inglês, numa destas invasões, a gang comandada pelos irmãos Burns, cometem um crime brutal contra uma família inglesa, assassinando-a. Cabe agora ao oficial Stanley - Ray Winstone em mais uma atuação bastante competente - capturar estes foras da lei e leva-los para a justiça australiana regida pelas leis britânicas, uma justiça tirânica mas para os dominadores imprescindível, para eles, os métodos violentos ajudariam os selvagens australianos a serem civilizados.

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O capitão Stanley (Ray Winstone) consegue capturar dois dos três irmãos Burns, Charlie Burns (Guy Pearce) e seu irmão mais novo Mike (Richard Wilson). Ele sabe que o chefe desta gang e o mentor dos assassinatos da família inglesa é o irmão mais velho dos dois, o homicida Arthur (Danny Huston). Arthur está foragido e residindo numa caverna em meio ao deserto australiano, um lugar inóspito e de difícil acesso onde até os aborígenes mais corajosos tem medo de ir, por dizerem ser um local protegido por espíritos selvagens e vingativos. Então ele faz uma proposta à Charlie Burns (Guy Pearce) que o colocará numa posição onde ele terá que enfrentar a si mesmo e a sua família antes de poder cumpri-la.As atuações são bastante competentes, destaque para o genial ator inglês John Hurt, que faz uma ponta poderosa neste filme, como um culto caçador de recompensas sarcástico e alcoólatra.

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Arthur (Danny Huston) é um assassino frio e calculista que depois de cometer várias atrocidades se transforma num eremita afim de buscar paz espiritual e respostas para sua existência violenta. O diretor John Hillcoat consegue transpor este conflito do personagem através de uma magnífica fotografia, que em meio às belas paisagens das savanas australianas procura a redenção dos seus crimes bárbaros. Ele tenta chegar à sua essência primordial tentando buscar na energia fundamental da natureza a paz que nunca encontrou em vida. O filme faz uma alegoria a nossa existência perante a natureza, a nossa mãe, que livre de julgamentos, nos acolhe e nos conforta, nos provem com vida, beleza e misericórdia abundantes transpondo nossa arrogância e ignorância, nos fazendo humildes de coração perante a sua magnitude.

A natureza humana é antagonista à natureza primordial e natural que nos deu a vida, nos somos moldados pelo o meio em que vivemos e dependendo do infortúnio e de nossa fraqueza este meio pode nos transformar em monstros abomináveis. A natureza primordial entende que o instinto animal racional ou não pode ser imprevisível, e por muitas das vezes bastante cruel, e o perdão perante a vida é mais importante que a vingança ou o orgulho.

19194927.jpg-r_640_600-b_1_D6D6D6-f_jpg-q_x-xxyxx.jpg Arthur (Danny Huston) em meio a savana australiana.

Enfim, este filme possui uma metalinguagem filosófica que nos leva à uma jornada ao íntimo dos personagens sem a pretensão de julgamentos. O filme nos leva a pensar sobre a nossa natureza existencial, e de alguma forma nos prova que o ser humano é igual em qualquer parte e a única coisa que muda, é o meio em que estamos inseridos.

Trailer:


Leandro Godoy

Sou o criador, editor chefe e escritor do site Cinema e Fúria. Gosto dos mais malucos exploitations, aos cultuados filmes de arte até ao mainstream do cinemão pipoca. Meus outros interesses são: odontologia, literatura e música..
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