polimorfismo cultural

A cultura transposta num polimorfismo de subversão cognitiva... pare, leia e transcenda!

Leandro Godoy

Sou o criador, editor chefe e escritor do site Cinema e Fúria. Gosto dos mais malucos exploitations, aos cultuados filmes de arte até ao mainstream do cinemão pipoca. Meus outros interesses são: odontologia, literatura e música.

Cazuza: um poeta genuinamente brasileiro.

Agenor de Miranda Araújo Neto mais conhecido como Cazuza, em sua curta vida, revolucionou a música brasileira, e balançou as estruturas conservadoras políticas e sociais com sua poesia, que andava magistralmente na linha tênue entre o popular, o underground e a nata erudita da língua portuguesa.


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Após 23 anos de sua morte, Cazuza se transformou numa lenda, suas milhares de canções ainda permeiam a cultura brasileira andando na borda do que hoje se qualifica como popular, sua voz ainda é escutada e suas letras são atemporais. Vários foram os artistas que gravaram e regravaram suas poesias, e na minha opinião, nenhum deles as interpretam com tamanha sensibilidade e confiança como o genial Ney Matogrosso e o talentoso e estiloso roqueiro ''old school'', Frejat. Destaque para a interpretação de Renato Russo da música Quando Eu Estiver Cantando do Cazuza, aonde ele faz uma homenagem a ele, Renato Russo que foi outro ícone do rock nacional, sofria do mesmo mal que matou Cazuza e também sucumbiu pela a doença.

Ney Matogrosso interpretando Poema, uma música que Cazuza fez para a avó.

Frejat e Cazuza, Codinome Beija - Flor.

Renato Russo interpreta Quando Eu Estiver Cantando e Endless Love em homenagem ao Cazuza.

Cazuza já teve uma parcela de sua vida explorada pelo o cinema e pela literatura. O livro Cazuza, Só as Mães São Felizes escrito por Lucinha Araújo, a mãe de Cazuza, é o mais completo e conta com detalhes e sinceridade várias passagens do cotidiano normal de Cazuza, desde sua infância, sua adolescência, sua vida adulta e morte. Infelizmente Cazuza não teve tanta sorte no cinema, apesar do filme Cazuza: O Tempo Não Para de 2004 ser um filme competente, ele foca apenas nas partes polêmicas da vida de Cazuza e de uma forma tendenciosa, isto dito pela própria família e amigos do poeta e cantor.

fotolucinha.jpg Cazuza e Lucinha Araújo.

Cazuza descobriu no rock n roll a forma de ser, expor e gritar tudo aquilo que queria e sentia, uma forma verdadeira, inteligente, crua e marginal de se expressar que era um soco no estômago da hipocrisia e do conservadorismo da época. Depois de alguns anos cantando rock n' roll no Barão Vermelho Cazuza aconselhado pelo o seu grande amigo e empresário Ezequiel Neves (1935 - 2010), abandonou a banda e seguiu carreira solo, onde ele incorporou um estilo musical mais pessoal, misturando samba, MPB e rock n' roll.

cazuza2.jpgBarão Vermelho no Rock N Rio em 1985.

O que a ditadura militar fez de bom no Brasil, foi fazer com que jovens loucos e rebeldes saíssem de suas tocas e falassem tudo aquilo que era proibido, da mesma forma que a ditadura tentava de todas as formas oprimir e destruir os espíritos rebeldes, ela sem querer os ajudou a cria-los, e Cazuza foi um destes prolíferos artistas, mesmo com todas as facilidades proporcionadas por sua família bem estruturada financeiramente. Cazuza não foi um grande revolucionário político mas foi um grande revolucionário social.

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Barão Vermelho no Rock N Rio em 1985.

Artistas originais, politizados e autênticos como o Cazuza fazem muita falta na nossa música e na nossa atual sociedade brasileira que está caminhando para um futuro distópico e sem esperanças, uma sociedade totalmente dependente de organizações institucionalizadas como o governo e a mídia, uma sociedade acostumada e conformada com todas as futilidades e banalidades de nosso povo e da nossa cultura, da nossa política e da nossa nação. O que ele estaria fazendo e dizendo hoje com os seus 55 anos? Não tenho ideia, mas a verdade é que, o coração doí de pensar em todas as possibilidades.

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Cazuza morreu aos 32 anos de idade no dia 7 de julho de 1990 em decorrências das alterações imunológicas causadas pela Aids, o grande mal do século XX, esta foi a grande luta que ele enfrentou em vida. Cazuza não escondia os sinais e sintomas provocados pela doença como o emagrecimento e a fraqueza, e mesmo doente e debilitado, fazia questão em promover grandes shows em grandes casas noturnas para um grande público. Nesta época, o balão de oxigênio se tornou seu companheiro nos shows, do qual ele não tinha vergonha de usar no palco toda vez em que lhe faltava ar.

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Entrevista de Cazuza para o Jô Soares em 1988, dois anos antes de sua morte.

Mídias se aproveitaram da desgraça de Cazuza e da fama da AIDS, para conceber notícias sensacionalistas por puro intuito capitalista, foi o caso da revista Veja que lançou a matéria de capa: CAZUZA, uma vítima da AIDS agoniza em praça pública. Mesmo isso não deprimiu Cazuza que seguiu firme em sua proposta de ser o mártir deste mal, mostrando e conscientizando a população para os males da AIDS que era uma doença pouco conhecida na época, e que ceifou a vida de milhares de jovens pelo Brasil.

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Esta é minha pequena demonstração de carinho e respeito pela a vida e obra do saudoso Cazuza. Um extraordinário ser humano e artista, e acima de tudo um brasileiro, um patriota, que deixava claro em suas obras a vontade de mudar e transformar este país.

Barão Vermelho no Rock N Rio em 1985.


Leandro Godoy

Sou o criador, editor chefe e escritor do site Cinema e Fúria. Gosto dos mais malucos exploitations, aos cultuados filmes de arte até ao mainstream do cinemão pipoca. Meus outros interesses são: odontologia, literatura e música..
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