polimorfismo cultural

A cultura transposta num polimorfismo de subversão cognitiva... pare, leia e transcenda!

Leandro Godoy

Sou o criador, editor chefe e escritor do site Cinema e Fúria. Gosto dos mais malucos exploitations, aos cultuados filmes de arte até ao mainstream do cinemão pipoca. Meus outros interesses são: odontologia, literatura e música.

José Mojica Marins: Louco ou Gênio?

O que é a vida?
É o princípio da morte.
O que é a morte?
É o fim da vida.
O que é a existência?
É a continuidade do sangue.
O que é o sangue?
É a razão da existência. - Zé do Caixão


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Josefel Zanatas ou José Mojica Marins como é mais conhecido, é o cineasta, roteirista e ator mais importante e controverso do cinema brasileiro, um dos poucos que conseguiram conceber uma identidade própria em sua narrativa e estilo, livres de outras inspirações e influencias cinematográficas, principalmente do cinema internacional. José Mojica Marins é considerado umas das principais inspirações do movimento mais importante da cultura cinematográfica do Brasil, o cinema marginal brasileiro.

O cineasta já trabalhou e passeou entre vários gêneros e estilos cinematográficos no Brasil, desde filmes de faroeste à aventuras, desde pornochanchadas à softcores mas foi com o gênero de horror que ganhou fama. Ele é até hoje um cineasta ridicularizado pelos limitados críticos das mídias brasileiras sensacionalistas e populares, críticos estes que fabricam opiniões com sua tendenciosidade idiotizando milhões de brasileiros, fazendo-os ridicularizar e perder a fé no cinema nacional que não seja do circuito da Globo Filmes, mas Mojica é idolatrado por vários cinéfilos e cineastas aqui no Brasil, pessoas estas que não deixam o seu trabalho ser vítima de chacota.

José Mojica Marins é um guerrilheiro do cinema, um artista que não se entregou aos déspotas que comandam o mercado cinematográfico aqui no Brasil e muito menos ao governo brasileiro, que já o censurou várias vezes, principalmente na época da ditadura militar, eles fizeram até ele conceber um novo fim para o filme Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver, que é o segundo filme com o personagem mais famigerado do gênero do horror mundial, o Zé do Caixão, um personagem que tomou conta da psique de Mojica. Neste filme a censura obrigou que Mojica desse a redenção cristã para o personagem quando ele imponente vê a face da morte, tipo uma reconciliação com Deus e a afirmação de sua existência, temendo ir para inferno devido aos seus sádicos pecados.

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Zé do Caixão é um personagem excêntrico e maléfico, um psicótico paranoico nato, um psicopata que se diz pertencente à uma raça superior que não acredita em superstições, um gênio homicida e sádico, o perfeito ''anticristo'' nietzschiano e herói dostoievskiano, ou seja, um personagem genial e singular na sua forma e complexidade. Este personagem foi criado por Mojica, o semianalfabeto José Mojica Marins como definem os críticos que o depreciam, ele passou sua infância dentro de um cinema no qual seu pai trabalhava, assim ele assistiu à vários filmes algo que o ajudou na concepção da sua própria arte, ele não estudou o cinema, ele é o cinema. Sem nenhum conhecimento técnico ele concebeu seus filmes movido apenas pela paixão e a vontade obsessiva de se expressar, um propósito que apenas as pessoas que sabem e amam o que são e o que querem, entendem. Ele sempre ousou, assim usando o amadorismo ao seu favor.

Algo interessante de sua obra é que em todos os seus filmes sua voz foi dublada, algo comum de se acontecer em vários filmes por vários motivos técnicos, como nitidez de som e melhor performance nas interpretações, ele só não foi dublado no filme Encarnação do Demônio de 2008 onde ele usou a própria voz, seu principal dublador foi o artista Laercio Laurelli.

947137_465325610213891_367444697_n.jpg Christopher Lee e José Mojica Marins num festival de cinema na França.

Ele criou o personagem Zé do Caixão a partir de um pesadelo que teve onde um vulto carregava sua alma pelos pés até o seu caixão, várias viagens sádicas e lisérgicas de seus filmes ele concebeu à partir de pesadelos, no filme O Ritual dos Sádicos de 1970, onde ele cria a sua própria visão do inferno é um bom exemplo desta concepção inspirada no onírico.

"Certa noite, ao chegar em casa bem cansado, fui jantar. Em seguida, estava meio sonolento, entre dormindo e acordado, e foi aí que tudo aconteceu: vi num sonho um vulto me arrastando para um cemitério. Logo ele me deixou em frente a uma lápide, lá havia duas datas, a do meu nascimento e a da minha morte. As pessoas em casa ficaram bastante assustadas, chamaram até um pai-de-santo por achar que eu estava com o diabo no corpo. Acordei aos berros, e naquele momento decidi que faria um filme diferente de tudo que já havia realizado. Estava nascendo naquele momento o personagem que se tornaria uma lenda: Zé do Caixão. O personagem começava a tomar forma na minha mente e na minha vida. O cemitério me deu o nome; completavam a indumentária do Zé a capa preta da macumba e a cartola, que era o símbolo de uma marca de cigarros clássicos. Ele seria um agente funerário." — José Mojica Marins

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O Ritual dos Sádicos foi um filme feito para provocar os censores da ditadura militar que estrangulava sua arte a fim de extingui-la - ele estava furioso quando o filme O Estranho Mundo do Zé do Caixão de 1968 foi picotado sem pudor - algo que fizeram com que os censores da Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP) proibissem o filme de ser comercializado no Brasil.

Nesta época José Mojica só não caiu no ostracismo no Brasil porque se privilegiava de uma certa fama apresentando um programa de TV na rede bandeirantes, o show era uma cópia genérica do programa norte-americano Alfred Hitchcock Presents. Nesta mesma década, mais precisamente em 1974, Mojica concebeu o filme Exorcista Negro, uma obra com um orçamento maior do que estava acostumado, que pegava carona no sucesso do filme O Exorcista de William Friedkin.

José Mojica também é um talentoso ator, ele já foi premiado em vários festivais nacionais e internacionais por suas performances nos seus filmes, se utilizando deste talento ele fundou com a ajuda de amigos a escola para atores Companhia Cinematográfica Atlas, especializada em filmes de horror. Mojica realizava experiencias dignas do Zé do Caixão, ele usava insetos para medir a coragem dos atores amadores que estudavam na companhia.

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José Mojica Marins personificava nos seus filmes a sua vontade de ser reconhecido em sua nação, característica de todo artista vilipendiado, enquanto que nos seus filmes ele é um genial professor em parapsicologia, psiquiatria, língua inglesa e portuguesa na vida real ele mal consegue dialogar corretamente como manda as regras do nosso idioma. Enquanto nos filmes ele é um poderoso e rico estudioso e cineasta, na vida real ele é carente em recursos na sua vida profissional. Se na ficção ele é aclamado pela mídia, críticos e intelectuais na vida real ele é completamente ridicularizado por eles. Felizmente, hoje em dia, com sua legião de seguidores e admiradores, Mojica pode ver uma pequena parcela deste seu sonho de ser reconhecido no Brasil realizado, ele goza de certo reconhecimento internacional onde seus filmes são aplaudidos e premiados, sua obra percorre o mundo e pode ser vista em mostras de cinema nos cinco continentes, mesmo com esta notoriedade internacional, algo que o brasileiro dá muito valor e que muda completamente a sua convicção sobre qualquer artista com este tipo de reconhecimento, aqui ele ainda é vítima de escárnio por muitas pessoas e reconhecido apenas por suas unhas compridas.

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Filmografia como diretor:

1945 - A Mágica do Mágico 1946 - Beijos a Granel 1947 - Sonhos de Vagabundo 1948 - A Voz do Coveiro 1955 - Sentença de Deus (inacabado) 1958 - A Sina do Aventureiro 1962 - Meu Destino em Tuas Mãos 1963 - À Meia-Noite Levarei Sua Alma 1965 - O Diabo de Vila Velha 1966 - Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver 1967 - O Estranho Mundo de Zé do Caixão 1968 - Trilogia do Terror 1969 - O Despertar da Besta 1971 - Finis Hominis 1972 - Dgajão Mata para Vingar 1972 - Quando os Deuses Adormecem 1972 - Sexo e Sangue na Trilha do Tesouro 1974 - A Virgem e o Machão 1974 - Exorcismo Negro 1975 - O Fracasso de Um Homem nas Duas Noites de Núpcias 1976 - Como Consolar Viúvas 1976 - Inferno Carnal 1976 - Mulheres do Sexo Violento 1977 - A Mulher Que Põe a Pomba no Ar 1977 - Delírios de um Anormal 1977 - A Estranha Hospedaria dos Prazeres 1978 - Mundo-Mercado do Sexo 1978 - Perversão 1980 - A Praga 1981 - A Encarnação do Demônio 1983 - Horas Fatais - Cabeças Cortadas (Horas Fatais) 1984 - A Quinta Dimensão do Sexo 1985 - 24 Horas de Sexo Explícito 1986 - Dr. Frank na Clínica das Taras 1987 - 48 Horas de Sexo Alucinante 1994 - Demônios e Maravilhas 1996 - Adolescência em Transe 2004 - Fim (curta metragem) 2008 - Encarnação do Demônio


Leandro Godoy

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