polimorfismo cultural

A cultura transposta num polimorfismo de subversão cognitiva... pare, leia e transcenda!

Leandro Godoy

Sou o criador, editor chefe e escritor do site Cinema e Fúria. Gosto dos mais malucos exploitations, aos cultuados filmes de arte até ao mainstream do cinemão pipoca. Meus outros interesses são: odontologia, literatura e música.

Cinema Revival: A Noite dos Mortos Vivos

A Noite dos Mortos Vivos de 1968 é o filme de terror mais influente e importante da história do cinema, não apenas pelo fato dele ser uma obra que revolucionou e moldou os padrões de uma das criaturas do submundo mais cultuada de todos os tempos, mas também pelo o fato deste filme criticar a instabilidade sócio-política que vivia os EUA neste período. A guerra do Vietnã estava no seu auge, e a cultura do medo se alimentava do temor do holocausto nuclear e da paranoia de uma invasão comunista disseminadas pela guerra fria.


PHcOp2bVCKAEgd_1_m.jpg Poster do filme A NOITE DOS MORTOS VIVOS feito pelo o artista Grzegorz Domaradzki

Em 1968, a sociedade estadunidense era composta por uma minoria protestante e conservadora que controlavam o sistema vigente através do domínio socioeconômico e pelas maiorias menas afortunadas que eram vítimas das violências físicas e psicológicas proporcionadas pela discriminação racial, política e social.

Além de ser uma obra-prima, este filme é uma inspiração para milhares de jovens cineastas pelo o mundo afora devido ao seu caráter guerrilheiro, ele foi na contra mão dos padrões adotados por hollywood. Seus realizadores apostaram num bom roteiro que foi levado a vida por um orçamento mínimo, já que nenhuma produtora queria investir num filme tão polêmico para a época quanto este, tudo foi movido pela ânsia de se fazer um filme e concretizar um sonho. Por causa de um erro no título seus realizadores deixaram de ganhar com os lucros desta obra que foram e são astronômicos, por causa deste pequeno detalhe ele passou a ser de domínio público e todos seus louros financeiros passaram a pertencer ao governo dos EUA, como disse George Romero para um repórter: ''Se o filme não fosse de domínio público eu estaria dando esta entrevista num pequeno castelo na França.'' Este filme foi o responsável pela a inserção dos zumbis como eles são hoje na cultura pop e na industria do entretenimento, as revolucionando para sempre.

Uma das características deste filme é a ousadia. O filme colocou pela primeira vez um negro como o líder de uma situação de extrema instabilidade social, dando ordens à pessoas brancas, algo que para a sociedade estadunidense da época era inconcebível e intolerável. Este tipo de situação era uma premissa apenas na guerra do Vietnã que era um conflito enaltecido pela a minoria dominante que a tinham como algo imprescindível para os EUA, para eles esta era uma boa oportunidade de se fazer uma limpeza étnica sem que nenhuma das ''pessoas de bem'' precisassem sujar suas mãos de sangue na missão de enxotar os negros, comunistas e pobres de seu país abençoado por Deus.

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O filme também enfureceu os protestantes que o difamaram e o rotularam como um filme satanista. Durante as filmagens as grandes produtoras como a Warner reconheceram que o filme poderia ser um sucesso comercial e até ofereceram dinheiro para que George Romero mudasse o seu final para um mais otimista e cristão mas felizmente, ele recusou a tendenciosa oferta.

Outra grande revolução social do filme foi a crítica que ele fez ao consumismo, os zumbis de George Romero são a representação de uma grande maioria da população que vive num estado de torpor social, sem prestar atenção ao mundo à sua volta, suplementando o vazio de sua existência fútil através do consumo exagerado, abstrato e feroz. Seguindo apenas o que manda o instinto condicionado pelo capitalismo.

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Os zumbis de George Romero nunca foram tão atuais como nos tempos escatológicos que vivemos hoje em dia, um zumbi sozinho não é tão ameaçador mas uma legião em sintonia com o ambiente sim, e para isto devemos estar inserido num contexto de caos social e político, algo que muito condiz com nossa atual desorganização mundial. Esta analogia poderia vir a calhar para o atual momento que o Brasil vem enfrentando em relação à paranoia ocasionada pela a velha e nova cultura do medo. Pessoas desprovidas de sua capacidade de pensar atacando com ferocidade uma parcela da população que ainda defende o fortalecimento da democracia e do pensamento livre, estas pessoas que se alimentam com ideologias criadas por oportunistas disseminam rápido esta doença, assim como aconteceria numa pandemia zumbi.

Imaginem um radical numa sala trancada onde não há recursos como energia, comida e água e que está lotada por pessoas que já perderam as esperanças de sair de dentro desta sala com vida, ele diz ser um messias de uma ideologia libertadora que poderá salvá-las, assim ele vai persuadindo um a um até que se transforme num líder, assim todos os seus seguidores perseguem e destroem os que opõem a ele, até não haver mais opositores dentro da sala. Este messias da sala poderia ser o marco zero do apocalipse zumbi que dará fim à estrutura da civilização humana como a conhecemos hoje, esta poderia ser uma das várias interpretações políticas da metáfora zumbi criada por George Romero.

Os mortos-vivos de Romero sempre serão os desafortunados que foram afetados por algum tipo de vírus, radiação ou um ataque alienígena - o filme não deixa isto claro - e que não mais são seres humanos providos de consciência, são apenas mortos vivos tentando desesperadamente sobreviver destruindo e depois cruelmente se alimentando das vidas que ainda se mantém livres da causa que as transformaram em zumbis.


Leandro Godoy

Sou o criador, editor chefe e escritor do site Cinema e Fúria. Gosto dos mais malucos exploitations, aos cultuados filmes de arte até ao mainstream do cinemão pipoca. Meus outros interesses são: odontologia, literatura e música..
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