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Incubador de pensamentos

Gustavo Serrate

Jornalista e cineasta independente de Brasília. Meus interesses transitam pelo cinema, quadrinhos, fotografia e toda forma de cultura independente ou marginalizada

Filmar pra quê?

Cineastas independentes da capital do Brasil expõem suas opiniões sobre o vício ou a necessidade de realizar filmes


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Captamos pílulas de pensamento de alguns dos cineastas de Brasília que mantêm produção relativamente constante com orçamentos baixos – em alguns casos, inexistentes. Saiba um pouco mais sobre como funciona a cabeça de um realizador, quais são suas preocupações e por que motivos escolheu trilhar essa estrada.

José de Campos

José de Campos Afastou-se da publicidade depois de 20 anos para estudar artes cênicas e cinema. Realizou três filmes que considera “autorais”: Navalha, Homilia e Duplo.

Tenho 46 anos e sou de uma geração criada pela TV. Existia dificuldade financeira real para se assistir a um filme. Ir ao cinema era um programa como jantar em um restaurante fino. Antes do videocassete éramos reféns da programação dos poucos canais. A quantidade de coisas que assimilamos é tão enorme e rica que se transforma em necessidade fisiológica de repassar isso adiante, de contar suas próprias histórias e ser lido e assistido. Tem muito a ver com as leis de retorno que a própria natureza cria, para que as coisas continuem evoluindo e mudando.

Em meus estudos de preparação de elenco, pude vislumbrar um cinema 100% nacional. Está relacionado ao timing da atuação. Mas o entendimento do timing ainda é problema para nós, um povo acostumado a assistir a novelas e a filmes americanos. Sei que o nosso cinema legítimo está por aí. Não acredito que tenhamos um mercado forte em Brasília. Temos muito talento e força de vontade. O curta só tem o mercado dos festivais. O longa ainda é utopia, mas temos duas ou três faculdades que ainda movimentam bastante as produções locais.

Tiago Esmeraldo

Tiago Esmeraldo Realizou nove filmes ligados a assuntos como a tomada de decisões, sobre consciência e fé. O último foi o resultado de uma oficina para jovens.

Nunca fui bom em me comunicar apenas com palavras. Na maioria das vezes preciso ilustrar o que quero passar com gestos, sons ou imagens. Fazer cinema surgiu da necessidade de me comunicar. Cinema não é um vício, é um prazer. Uma das melhores coisas da vida é ser pleno naquilo que se faz. Isso só é possível se há prazer. Não conseguiria me lembrar de todas as coisas boas que o cinema me trouxe, mas gostaria de destacar quatro: conhecimento, oportunidades, crescimento e amizades, que para mim foi o mais importante. O cinema tem esse poder de conectar as pessoas umas às outras.

Péterson Paim

Péterson Paim Realizou mais de 20 filmes, entre eles o longa Além dos olhos, suspense experimental. Os R$ 25 mil para o filme saíram do bolso do diretor.

Se eu tivesse condições, viveria para fazer cinema, mas tenho contas a pagar. O cinema me trouxe satisfação, amigos verdadeiros e alguma renda quando trabalhei com a direção e produção de documentários para a UnB e a ITTO [organização que promove o uso sustentável das florestas tropicais] na Amazônia. De vez em quando faço trabalho extra, mas minha prioridade são meus filmes. Os cineastas independentes movem o cinema de Brasília limitados pelos recursos financeiros. Há ótimos profissionais, mas falta uma maneira de escoar o trabalho para o resto do País e do mundo por caminhos comerciais que não dependam de festivais nem de distribuidoras monopolizadoras.

Erico Cazarré

Érico Cazarré O diretor da Caza Filmes produziu 14 filmes, dirigiu 13 e foi diretor de fotografia em 17.

O cinema me deu uma profissão. Além disso, me trouxe muitos amigos, me levou para viajar e me permite viver uma vida que não cai na rotina. Como todo trabalho, às vezes me deixa sobrecarregado, mas não compromete outras atividades. O comentário mais interessante que ouvi foi que meus filmes começaram a fazer sentido dentro de um conjunto. Para fazer bons filmes é fundamental uma boa equipe. O filme existe para ser visto. Fazer filmes que ninguém gosta de ver, para satisfazer caprichos, é desperdício de tempo e dinheiro.

Mateus Araújo

Mateus Araújo Realizou seis filmes, a maioria “sobre um cara meio perdido, sem saber para onde ir” – e completa: “Acho que sou eu”. É vocalista da Optical Faze.

Fazer cinema é uma necessidade, pois a gente não tem nenhum apoio e tenta fazer. Não tem nenhum incentivo, mas ainda faz. Só pode ser necessidade. E necessidade é algo quase fisiológico, não tem explicação. Não penso em viver de cinema, mas não quer dizer que se acontecer eu vou achar ruim. Uma das coisas mais significativas de se alcançar ao fazer um filme é a percepção da simplicidade, mesmo dentro de algo complexo. É algo difícil . O que movimenta o cinema de Brasília é a necessidade de se expressar, de dizer algo.

Rodrigo Huagha

Rodrigo Huagha Dirigiu mais de dez curtas, produziu o Projeto Nome, reunindo cineastas independentes. Produziu o longa de terror A Capital dos Mortos e recentemente dirigiu os curtas Inóspito e Infrator.

Assistir cinema é realmente um vício. Gosto de ficar informado sobre as produções, sinto necessidade de ir atrás, caçar filmes. Mas produzir não é um vício, já fiquei muito tempo sem realizar algo, mas sempre anotei ideias. Quando criança eu ficava intrigado ao assistir a um filme. Depois da adolescência fui pesquisando sobre o que era cinema e seu modo de fazer. Alguns curtas renderam dinheiro com premiação ou venda, por serem exibidos na TV, principalmente os filmes realizados para o Festival do Minuto. É empolgante visitar alguns festivais, viajar para exibir meus projetos. Eu sempre gostei de pequenas produções focadas em uma boa estória, sem a necessidade de muitos recursos. Realizo pensando nisso, gosto de assistir a filmes assim.

Tiago Belotti

Tiago Belotti Dirigiu A Capital dos Mortos, além de 11 curtas nos quais trabalhou gêneros (comédia, ficção científica, dramas adultos, documentário e falso documentário).

Sou viciado em filmes desde pequeno, por isso desenvolvi a vontade de me expressar da mesma maneira. Dediquei mais de dois anos ao meu longa e os outros aspectos da minha vida ficaram em segundo plano. Hoje acredito saber dosar essa vontade de produzir. Meu longa recebe comentários dos dois extremos. Os mais comuns são do tipo: “Filme de terror brasileiro é uma merda” ou “Se eu pegar um celular e juntar alguns amigos no quintal, faço melhor”. Um positivo foi que meu filme está marcado eternamente como referência de cinema independente de gênero no Brasil. Com a gravidez da minha mulher, estou me tornando uma pessoa com vontade de contar estórias menos transgressoras. O Festival de Brasília é pouco estimulante para cineastas independentes. Brasília não valoriza o cinema local de baixo recurso. Dependemos de alguns poucos festivais bem intencionados.

Alex Medrado

Alex Medrado Produz filmes há quatro anos. Trabalha com produção audiovisual e realizou mais de 11 filmes.

Trato de temáticas diversas. Alguns dos meus filmes questionam o próprio cinema, tenho dramas psicológicos, filmes com uma pegada social e muitos vídeos que não têm propósito de narrar uma estória, mas de potencializar a vida das imagens. Em meus filmes experimentais a narrativa é o que menos importa, são brincadeiras. Já ouvi comentários desde “malfeito” e “tosco” até “não compreendi”. Embora outras pessoas tenham achado os filmes enigmáticos e representativos de algo muito particular para eles, do tipo: “dialogou comigo” ou “diz muito de mim”.

Publicado originalmente na revista MeiaUm


Gustavo Serrate

Jornalista e cineasta independente de Brasília. Meus interesses transitam pelo cinema, quadrinhos, fotografia e toda forma de cultura independente ou marginalizada.
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