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Incubador de pensamentos

Gustavo Serrate

Jornalista e cineasta independente de Brasília. Meus interesses transitam pelo cinema, quadrinhos, fotografia e toda forma de cultura independente ou marginalizada

Adestradas para odiar

As jovens gêmeas cantoras do Grupo Prussian Blue que trocaram a mensagem nazista de suas canções após conhecerem a maconha


Nos idos de 2003, influenciadas pela ideologia nazista dos pais, as duas irmãs gêmeas de quatorze anos, Lynx e Lamb Gaede, saíram do anonimato para formar o grupo musical “Prussian Blue”. Com as belas vozinhas infantis, as irmãs cantarolavam um folk americano singelo, porém carregado da temática relacionada à “supremacia racial branca”.

As irmãs Gaede

O aspecto marcante da banda foi a contradição entre a beleza angelical das duas jovens e o conteúdo brutal das músicas. O termo Prussian Blue (Azul da Prússia) designa a cor dos uniformes militares de guerra do Reino da Prússia (entre 1871 e 1945), o maior território administrativo da alemanha durante o terceiro Reich. Algumas das canções recebiam nomes sugestivos como: "O despertar do homem ariano", "ódio por ódio" ou "garoto skin head". O pai das meninas, um caipira grisalho, estampava uma grande suástica no carro, e também marcava o gado com o símbolo do Reich. Para April Gaede, a mãe das meninas, o termo “racista” não é perjorativo. “Um racista é apenas uma pessoa que vê diferença nas raças, todo mundo é racista”, afirmou. April Gaede faz parte da Vanguarda Nacional de Supremacistas Brancos (EUA).

As garotinhas, que começaram a cantar cedo, usavam camisetas com a imagem de um simpático Hitler estilizado e sorridente. Nos shows, elas brincavam de dançar lindamente uma coreografia em torno da suástica desenhada no chão.

Uma das músicas homenageava Rudolf Hess, o sujeito que ajudou Hitler a escrever Mein Kampf, enquanto os dois líderes eram prisioneiros antes da segunda guerra mundial. A música dizia: "Rudolf Hess, um homem de paz. Ele não vai desistir. Ele não vai cessar. Eu deu sua lealdade à nossa causa”. Grupos skin heads logicamente elogiavam a “fofura” das meninas.

Em certo ponto da trajetória familiar, April Gaede decidiu mudar-se do rancho familiar Gaede para um bairro mais próximo da cidade, com a condição de que fosse um bairro bastante “branco”. No novo bairro, porém, eles foram recebidos com rejeição. Assim que os vizinhos souberam quem eram aquelas pessoas, colaram dezenas de cartazes com dizeres do tipo “NO HATE HERE!” (Sem ódio por aqui!). A preocupação de April foi a de que as meninas sofressem rejeição e maus tratos dentro da escola e dentro da comunidade onde o pensamento nazista não se proliferava.

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Mas para o terror da mãe, a mudança de bairro e a mudança de escola significou muito mais do que rejeição. A mudança significou a transformação radical do pensamento das jovens. Conforme chegavam a adolescência, experimentavam a vida, conheciam novas pessoas e se distanciaram da mentalidade interiorana, passando a corresponder com pensamento mais tolerante. Explodiu então em toda a mídia, chegando até ao Brasil em tom de notícia bizarra, uma manchete sensacionalista, mas em parte verdadeira: “Irmãs gêmeas abandonam o nazismo por causa da maconha”. As gêmeas descobriram a maconha, e através dela conheceram o estilo de vida hippie. Abriram-se para um mundo mais torelante e liberal e hoje não pretendem mais propagar o ódio racial.

Um documentário realizado sobre o grupo Prussian Blue, veiculado pela ABC News, captou depoimentos de Lynx Gaede, onde ela esclarecia seu novo pensamento: “Sou crescida agora. Eu era uma criança naquela época. E eu disse muitas coisas em que não acredito mais”. A menina afirma que ela e a irmã estudavam em casa, ensinadas pelos pais: “Éramos caipiras. Hoje me sinto orgulhosa da humanidade todos os dias, por termos tantas pessoas e lugares diferentes”, disse Lynx.

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Óbvio que a verdade é muito mais profunda do que os boatos. No período dos estudos, Lynx foi diagnosticada com câncer, e o tumor foi removido de seu ombro. A carreira do duo foi deixada temporariamente de lado para o tratamento. Por causa do câncer, Lynx foi medicada com Marijuana para fins medicinais. Mas parece que não foi só Lynx que usou a Marijuana medicinal pois a visão radical da irmã também se transformou. Hoje em dia as meninas tem uma postura liberal, e segundo alegam, seus impulsos criativos receberam um novo estímulo, e hoje, as irmãs se tornaram pintoras.

April Gaede, a mãe das meninas, não aceita a nova postura das filhas e acredita que tudo não passa de uma rebeldia tipicamente adolescente. “Não é popular ser um branco supremacista, e elas querem ser populares”.

Por Gustavo Serrate

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Gustavo Serrate

Jornalista e cineasta independente de Brasília. Meus interesses transitam pelo cinema, quadrinhos, fotografia e toda forma de cultura independente ou marginalizada.
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