ponto cego

Incubador de pensamentos

Gustavo Serrate

Jornalista e cineasta independente de Brasília. Meus interesses transitam pelo cinema, quadrinhos, fotografia e toda forma de cultura independente ou marginalizada

Robert Pirsig Sobre qualidade do sistema educacional

Qual é a relação entre um escritor atravessando os Estados Unidos de Motocicleta e a qualidade do sistema educacional baseado em notas?


"Arte é qualquer coisa que você saiba fazer bem. Qualquer coisa que você saiba fazer com qualidade" - Robert M. Pirsig

Robert M. Pirsig e seu filho de motocicleta, atravessando os EUA

Robert M. Pirsig é um escritor e filósofo americano. Aos nove anos foi adiantado vários graus na escola por ser superdotado. Em seu livro "Zen e a arte da manutenção de motocicletas", Pirsig cria uma narrativa a partir de seu alter ego, como um acadêmico atravessando os Estados Unidos de moto junto ao seu filho. Neste livro, Pirsig expõe teorias interessantes sobre o conceito de qualidade, ampliando o uso do conceito de "qualidade", e explicando a relação entre um trabalho de qualidade, feito com paz de espírito, e um trabalho sem brio.

O livro é uma narrativa, apesar disso, vários assuntos são discutidos e refletidos pelo autor durante a calmaria da viagem, e vários insights podem ser extraídos durante a leitura. Um dos pensamentos remete ao sistema educacional como um todo.

Em determinado ponto do livro, o personagem busca uma alternativa ao sistema de notas das escolas e faculdades. Para isso, ele como professor, diz aos alunos que eles passarão um semestre sem receber notas pelo desempenho. O desempenho será definido pela "qualidade" dos trabalhos apresentados.

Mas ai surge outra questão. O que é qualidade? Como vou saber que meu trabalho tem qualidade?

Então ele passa a apresentar para a turma várias redações. Algumas delas cheias de erros gramaticais, outras com textos sem nenhuma coerência lógica, outros textos não citam fontes para informações, outros apresentam argumentação falaciosa. Em contraponto, ele também mostra alguns textos muito bons, bem escritos, coerentes, relevantes, etc.

Ele então pede que os alunos escolham quais textos tem qualidade. E a maioria dos alunos votam nos textos bem escritos, com poucas excessões.

Então ele começa a definir aspectos da qualidade em um texto, como por exemplo: unidade, vivacidade, autoridade, economia, sensibilidade, clareza, ênfase, fluência, suspense, brilho, precisão, proporção, profundidade, e assim por diante.

Ele mostra como o aspecto da qualidade denominado unidade, a coerência de uma história, podia ser melhorada com uma técnica chamada 'plano-geral'. A autoridade de um argumento poderia ser beneficiada através de uma técnica chamada 'nota de rodapé'.

A partir dai, se o aluno entregasse uma tarefa mal feita, preguiçosa, demonstrando que queria apenas desimcumbir-se da tarefa, poderia ser alertado de que embora seu trabalho correspondesse ao que fora pedido, ele não alcançava os padrões de qualidade. E era por isso imprestável.

E surge sempre a pergunta: mas como se faz isso? Ele podia responder: não importa. Contanto que o resultado seja bom. Este método de medir o desempenho, ao contrário do método de notas, não premia a maneira de fazer. É um método que beneficia a criatividade.

E surge outra pergunta: "Mas como a gente vai saber se está bom?" Mas assim que perguntasse, outro aluno responderia: "É só olhar que você vê".

O aluno ficava comprometido a fazer os julgamentos de qualidade por sí mesmo. Eram forçados a adaptarem-se, utilizando regras por eles deduzidas, que refletissem seus padrões individuais de qualidade.

O vazio criado pela retenção das notas foi substituído pela meta positiva da qualidade


Gustavo Serrate

Jornalista e cineasta independente de Brasília. Meus interesses transitam pelo cinema, quadrinhos, fotografia e toda forma de cultura independente ou marginalizada.
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