ponto cego

Incubador de pensamentos

Gustavo Serrate

Jornalista e cineasta independente de Brasília. Meus interesses transitam pelo cinema, quadrinhos, fotografia e toda forma de cultura independente ou marginalizada

A distopia divergente

Um olhar mais demorado sobre o filme "Divergente", e sobre o interesse renovado por ficções científicas distópicas


Fico contente que a juventude volte a se interessar pelo tema da ficção científica em uma sociedade distópica. Divergente contém alguns elementos que poderiam gerar um filme excelente. A sociedade desse futuro divide-se em castas associando talentos pessoais com virtudes onde jovens são obrigados a escolher suas "vocações" sem chance de erro. Quem erra perde a chance de fazer parte de qualquer facção social, tornando-se literalmente a escória social. Qualquer associação com a tensão de prestar vestibular para uma boa faculdade e concursos públicos para o emprego dos sonhos não é coincidência.

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O filme consegue inicialmente pintar uma sociedade agradável na qual a vida parece fluir em equilíbrio, apesar de algo misterioso espreitar do lado de fora do muro. A cidade de Chicago (reconstruída sobre escombros) é cercada por uma muralha. Que perigos estarão do lado de fora?

Pronto, temos uma ambientação e uma atmosfera estabelecidos. O desenvolvimento do filme acompanha Beatrice, uma garota calma e humilde que separa-se da casta dos pais quando é obrigada a decidir sua nova "vocação". As tensões sociais entre diferentes castas e preconceitos são estabelecidos de forma interessante, além do esforço da personagem para adequar-se a nova casta, voltada para combatentes, apesar de ter vindo de uma casta de abnegação e humildade. O que inicialmente parecia ser uma sociedade harmoniosa, revela-se uma sociedade obcecada pelo controle de seus cidadãos, ao ponto de manipular mentes de castas inteiras afim de conservar a ordem vigente, mesmo que através da violência e da "limpeza étnica". Até ai, uma leitura interessante, possibilita vários paralelos.

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No entanto, no último terço do filme, a história adquire um tom banal de filme eletrizante e se perde nos clichês infinitos do gênero de ação. A história acelera-se de forma anti-natural, quase como se os roteiristas tivessem preguiça de escrever os minutos finais do filme (que diga-se de passagem, é muito longo) e condensassem todas as situações em saídas fáceis. Personagens interessantes surgem e são desperdiçados em mortes imbecis, beirando o patético, como ocorre ao pai e a mãe de Beatrice, seres supostamente tão inteligentes e prevenidos, que se entregam para mortes dignas de coadjuvantes em bollywood. O filme me faz pensar em Gattaca, uma bela obra cinematográfica que flerta com temas semelhantes, com o diferencial da elegância, de um trabalho esmerado e cuidadoso por parte da direção e do roteiro. Em "Divergente" os mesmos elementos são desperdiçados por um roteiro medíocre, por uma direção insossa e por produtores gananciosos, tudo isso baseado em livros irrelevantes consumidos com voracidade das prateleiras de best-sellers (o melhor lugar para se consumir as últimas novidades da nata da mediocridade intelectual).

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Outro defeito que me incomoda constantemente neste tipo de filme é a necessidade de estabelecer um par romântico. Outro ponto falho que beira uma patologia social moderna, na qual todo filme precisa desse tipo de relacionamento romântico. Geralmente pares românticos sem nenhum carisma, desacreditáveis, sem alma. Ai começa a minha tristeza como espectador. Apesar de me alegrar pelo interesse da juventude pelas distopias, uma forma eficaz de se questionar o Status Quo através da ficção, me entristeço pelo subtexto empobrecido das ficções científicas modernas. A necessidade de agradar o intelecto débilitado do público adolescente que não gosta de pensar, mas adora emoções cafonas  e pieguice.

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Em histórias desse tipo, a ausência do amor romântico abriria espaço para um desenvolvimento de trama muito mais complexo, inteligente e interessante, tornando o filme uma obra digna de ser repetida por gerações. A ausência da moralidade tradicional é outra característica que pode tornar um roteiro futurista imprevisível, interessante. No entanto os roteiristas (ou os estúdios) parecem querer impregnar os filmes com ideais ultrapassados de uma sociedade perfeita. No fim das contas o filme é paradoxal: Critica uma sociedade em busca obsessiva pela perfeição, mas em seu subtexto não oferece nenhuma possibilidade de revolução comportamental e social, apenas de repetição do modelo moral tradicionalista e conservador dos dias atuais.

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Três pro cento - série de ficção científica brasileira

Gostaria de fazer uma menção honrosa aqui a uma série brasileira chamada Três por cento. Apesar de não ter conseguido financiamento para ser continuada, parecia ser muito mais interessante do que qualquer Divergente. ASSISTA.

Criação: Pedro Aguilera Direção: Daina Giannecchini, Dani Libardi, Jotagá Crema

originalmente publicado em Kinolatra


Gustavo Serrate

Jornalista e cineasta independente de Brasília. Meus interesses transitam pelo cinema, quadrinhos, fotografia e toda forma de cultura independente ou marginalizada.
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