ponto e vírgula

Opinião sem reticências...

Constance von Krüger

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AS MARAVILHAS DE ALICE

Se há um mundo encantado para o qual eu me mudaria, seria, sem dúvidas, o País das Maravilhas...


alice Se há um mundo encantado para o qual eu me mudaria, seria, sem dúvidas, o País das Maravilhas – o palco divertido e surreal das peripécias de Alice, a heroína de fábulas mais fascinante.

Quem não gostaria de poder sumir por um buraco atrás de um coelho quando a vida está monótona demais? Aliás, que delícia seria ter um coelho dizendo sempre que está atrasado. Talvez assim nos sentíssemos mais descompromissados com o tempo, que tanto nos pressiona e aprisiona. Afinal, se um coelho de cartola e relógio de bolso está “sempre atrasado”, nós podemos ter o tempo nas mãos. Tempo até pra puxar um trago com uma lagarta monossilábica que, mesmo em outra dimensão, responde as nossas mais profundas questões existenciais. Alice viveu isso – não saber o que comer para alcançar o seu tamanho original era uma dúvida e tanto para a garota. Quantas vezes precisamos que alguém nos diga que estamos “grandes” demais e devíamos ingerir algo que atenuasse esse ego inflado? E o contrário? Será que não seria ideal uma lagarta fumando algo misterioso que nos pudesse dizer que não, não devemos nos sentir tão apequenados, bastar tomar uma dose de. E por falar em dose, como já desejei participar, nem que fosse por uns minutos, de um lanche com o Chapeleiro Maluco e a Lebre de Março. Todos aqueles chás alucinógenos sem maiores efeitos colaterais além de provocar divagações deliciosas. Discutir-se-ia sobre matemática, francês e filosofia, tudo regado a goladas de algo líquido e colorido com lápis de cera.

No mundo de Alice, nem tudo, porém, é inverossímil. Numa cartada (com o perdão do trocadilho) genial, Lewis Carroll criou a mais tirana e divertida soberana: a Rainha de Copas. Com gritos afoitos e ordens escalafobéticas, a rainha manda e desmanda nos súditos e no marido, o pequeno e submisso Rei. Fazendo uma analogia à então recente “Guerra das Duas Rosas”, o autor nos brinda com a personagem que nos traz um pouco de volta ao mundo real. Não há como negar que as ordens da Rainha, que só aceitava rosas vermelhas em detrimento das brancas, nos remetem às situações em que a vida nos é bastante madrasta. Estamos constantemente sob a mira de alguém que quer nossa cabeça cortada a todo custo. Como não poderia deixar de ser, há, nesse reino de gritaria, um julgamento final, em que Alice é posta de ré e quando vários personagens têm condutas diferentes do que se podia deles esperar. Há sempre muita contradição no mundo real, não?

Inegável é, sem dúvidas, o charme que o gato listrado de duas cores apresenta. Com frases ambíguas e colocações de coerência duvidosa, ele, por vezes, nos dá lições. Com seu sorriso matreiro e seus truques de aparecer e desaparecer, o felino responde a Alice algo que merecíamos ouvir a cada vez que mais de um caminho se apresentasse. Quando perguntado qual o melhor caminho que deveria seguir, Alice recebe a resposta de que dependia do seu destino. Com a espontaneidade de uma criança, mas a consciência de um adulto, a menina responde que não sabe pra onde ir. O Gato Risonho diz então: “Para quem não sabe para onde vai, qualquer caminho serve.” Obrigada, Gato. Obrigada, Alice. Obrigada, Lewis Carroll, pela resposta.

[Não deixem de ler a versão original de “Alice no País das Maravilhas”, o texto é riquíssimo. Leiam também “Alice Através do Espelho”, a história menos conhecida da nossa protagonista, também genial com seus personagens e enredo próprios.]


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