ponto e vírgula

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Constance von Krüger

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AS MIL FACETAS DE "LAS MENINAS", OBRA DE VELÁZQUEZ


O que quis dizer Diego Velázquez ao pintar "Las Meninas"?las meninas.jpg

Diego Velázquez, pintor espanhol do século XVII, foi ilustre retratista e artista da corte Espanhola, no reinado de Filipe VI. Apesar de encerrado pela cronologia no período barroco contemporâneo, Velázquez rompeu com os limites de seu tempo ao tornar-se referência para outros artistas de tempos atuais, incluindo os mais rebeldes e inovadores impressionistas, realistas e surrealistas. Em releituras várias, destacam-se como influenciados por ele grandes nomes contemporâneos, como os também espanhóis Picasso e Dalí. Um dos elementos responsáveis por sua canonização artística pode ter sido a subjetividade que imprimia em cada obra. Em se tratando de auto-retratos ou mesmo representações de outros, o pintor deu sempre a pincelada ambígua, que traz interpretações várias até os dias atuais. Sua obra-prima, “Las Meninas” (1656), é uma tela de proporções grandiosas e, depois de séculos alojado no Alcázar de Madrid, hoje se encontra no Museo del Prado, o mais famoso da Espanha e um dos maiores e mais completos museus da Europa. A pintura seria um simples retrato de família real se não fossem elementos que a tornariam uma das mais estudadas obras de arte. Uma novidade inaugurada por Velázquez foi incluir-se na cena retratada – ele se pinta em serviço, diante de um cavalete, com seus objetos de trabalho em punho, uma bela metalinguagem. Ao seu lado está, centralizada, a Infanta Margarida de Áustria, personagem principal do quadro, e uma bela garotinha assim representada. Orbitando ao seu redor estão aquelas que seriam suas amas (daí o nome “Las meninas” – ‘meninas’ era um termo advindo de Portugal para designar justamente as damas de companhia), jovens e adultas. Há controvérsias inclusive sobre uma delas, que mais se assemelha a uma anã. Existe quem defenda que é sim uma anã, e quem diga que não, é apenas uma criança feia. Mas essa é apenas uma das tantas discussões acerca dos personagens e do enredo de que trata a obra. Ao fundo vê-se um homem, mais um integrante da corte real. Porém, para os mais observadores, o elenco não está acabado. Ao fundo, em uma moldura, estaria um espelho, onde estariam refletidos os reis. Essa visão muda a idéia de que Velásquez se preparava para pintar a Infanta e as outras companheiras – parece agora que o pintor mirava os reis e as meninas apenas assistiam à cena, como testemunhas daquele ritual. O uso do espelho, embora não exclusivo de Diego Velázquez, é uma bossa que aumenta a subjetividade, e as controvérsias sobre quem seria, de fato, retratado, dão a dimensão de toda a dúvida acerca da obra. A visão politizada da obra acirra os debates: Ao retratar os reis de forma “virtual”, apenas em um espelho, ele estaria denotando a também virtual presença deles na corte. A figura central ser a Infanta Margarida explica-se pelo fato de que, até o momento, a garota seria a herdeira do trono Espanhol – sua irmã mais velha estava para se casar com o rei da França, o que a excluía da herança, e seu irmão mais novo, que viria a herdar o trono, não havia nascido ainda – e, por isso, a verdadeira poderosa naquele reino. Sob essa ótica Velázquez estaria também reclamando sua posição na corte. Considerado por muitos seu mais belo auto-retrato, o pintor se dá muito destaque. É visível que ele é a figura mais alta (e também mais independente) na imagem. Estaria, assim, reclamando destaque social. O segmento que estuda a simbologia da obra aponta também para a hipótese de que cada “menina” representasse algo. Por exemplo: a anã representaria a Cobiça, com seu saco de moedas nas mãos, e o garoto importunando o cachorro seria o Mal tentando intervir na Lealdade. As mil facetas da obra-prima de Diego Velázquez revelam também as várias roupagens do pintor.Como disse Tolnay, “As Meninas são como um manifesto sobre a pintura como arte liberal.” Por vezes estudado como simples retratista, o espanhol mostra-se, a cada nova interpretação, um ícone da arte em seu mais puro sentido – a subjetividade e a riqueza da releitura. Fica sempre uma réstia de dúvida sobre o que quis dizer Velázquez, e a resposta talvez jamais seja atingida.


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