ponto e vírgula

Opinião sem reticências...

Constance von Krüger

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LÚCIO CARDOSO, NELSON RODRIGUES, E A HIPOCRISIA BRASILEIRA

O maior país católico do mundo é a terra das mulatas nuas.


lucio nelson.jpg O recém-findo século XX foi palco de contravenções de todo tipo – Cenário de guerras sanguinolentas, ditaduras direitistas, coroação e destronamento da grande república socialista, e de muitos personagens que contribuíram para que as contradições em todo mundo (e em cada canto do mundo), como Einstein, Hitler, Elvis Presley e Lady Di se perpetuassem. Se há um tempo em que o discurso esteve diametralmente oposto ao que de fato acontecia, esse foi o compreendido nos anos 1900. Quando mais poderiam ter nascido, portanto, ícones brasileiros que expuseram, com toda a intensidade que podiam, tais incongruências? Era 1912, ano em que o Titanic, melhor e maior navio do mundo, naufragou, quando nasciam, sob a estrela do mesmo mês de agosto, Nelson Rodrigues e Lúcio Cardoso. E, por falar em século, completam estes cem anos de nascimento, em agosto de 2012.

No dia 14 de agosto daquele ano, vinha à luz Lúcio. Mineiro de Curvelo, católico e pertencente a uma tradicional família, Cardoso viria a ser famoso no ofício de escritor com seu maior sucesso, o romance “Crônica da Casa Assassinada”, de 1959, cultuado em todo o meio acadêmico. Tal obra desafiou, com suas verdades flutuantes e assuntos polêmicos, a tal “tradicional família mineira”, que Lúcio, embora pertencente de nascença, enjeitou ao se mudar para o Rio de Janeiro. Homossexual assumido, o escritor, poeta, dramaturgo e jornalista rompeu com tudo que havia de cerceador na cultura em que estava inserido. Em sua obra-prima, a infidelidade, a religião, ou a falta dela, o incesto e outras mazelas que a mente humana teima em negar são expostas sem pudor. O único negro véu que impede a total visualização da história que Lúcio pretende contar é justamente a infinidade de versões, visto que o romance é construído baseado em diversas vozes. A polifonia é levada à sua condição mais extrema, em que é possível que nem o autor saiba qual, de fato, é a verdade dos fatos. A grande heroína de Lúcio Cardoso é Nina, uma golpista interesseira, que adentra a família Meneses, depois foge, e volta anos depois, para terminar de despedaçar aquela casa que vai à ruína em seus pilares mais profundos. Nina, como um bisturi, rasga toda e qualquer máscara social.

Já no dia 23, do mesmo mês e do mesmo ano, nascia Nelson Rodrigues. Pernambucano de Recife, mudou-se ainda criança com a família para o Rio de Janeiro, onde o pai buscou melhores condições para criar os filhos. Em uma reunião de textos que funciona como suas memórias – A menina sem estrela – Nelson se despe de todo e qualquer preconceito que ainda possa haver sobre ele. O “anjo pornográfico”, como ele próprio se chamava, foi muitas vezes ofendido de reacionário e tarado, títulos que se esvaem como gelo derretendo no uísque quando se lêem crônicas que mostram seu lado mais humano, o que vislumbrou da infância, suas revelações de memória, como a nudez marcou-lhe toda a vida, e como ele reagia, sim, a tudo que não somava. Disposto a negar tudo que não lhe convinha, Nelson, por sua atitude determinada e seletiva, passou a ser chamado reacionário. Seus maiores sucessos estão na dramaturgia. Peças como “Vestido de noiva” e “Anjo Negro” chocaram a sociedade da época, não por abusarem de cenas picantes, de estupro, ou de palavrões. O que sempre tornou a obra rodriguiana assustadora para a época foi justamente a nudez do discurso. Nelson se despiu de toda a convenção social do que era pudico ou não, para publicar o que todos pensavam. Mais que a roupa de suas personagens, Nelson retirou a hipocrisia brasileira do século XX, quando as senhoras rezavam e se deitavam purificadas e seus maridos as tomavam nos braços sem qualquer amor divino, mas com toda a humanidade carnal. Quando essas mesmas senhoras traíam seus respectivos, e julgavam a vizinha do decote mais acentuado.

A terra brasilis, um belo dia, tornou-se uma grande Sapucaí, onde desfilam mulheres semi-nuas, cobertas de penas de pavão. Mas, os espectadores, que aplaudem, vibram e avaliam o desempenho de tais cabrochas, são senhores de respeito e mulheres recatadas, que aspiram estarem na avenida, mas que sabem o espaço que lhes cabe, a platéia conservadora e bem vestida. No maior país católico do mundo, religião que prega o amor ao próximo, as religiões africanas, ou mesmo o ateísmo são julgados manifestações do diabo. Rico culturalmente como poucos no mundo, o Brasil ainda “produz” gente que é incapaz de olhar para dentro, e ainda vive na eterna esperança de ser espelho europeu ou norte-americano, e consome para sentir-se pertencente ao dito primeiro mundo. O “arroz e feijão”, dobradinha mais comum em todo o território, tornou-se consumo de classe média-baixa, e a cachaça ganhou um limão picado e bastante açúcar, que é para agradar quem vem de fora para experimentar a “caipirrinha”. O país etnicamente mestiço como é, ainda precisa fazer uso de leis raciais e cotas para chegar à igualdade. Brasileiro diz “alemão”, mas “negão” virou palavrão. O combate a corrupção é bradado aos quatro cantos por quem fura filas e adultera imposto de renda. Chama-se o país do futebol a terra onde os jogadores são expostos como gado para serem leiloados pelos que estão de fora. Onde esses mesmos jogadores, ao atingirem a meta, não vibram genuinamente, mas procuram a câmera mais próxima para exporem suas novas coreografias da música da moda. E é aqui também onde se criticam os cantores que lançam seus sucessos não muito inteligentes no exterior, esquecendo-se que só passaram a esse nível mundial porque tiveram o retorno mais que positivo em casa. Critica-se mais que se faz. A hipocrisia deveria mudar de nome, pois com “h” é difícil para tantos analfabetos que se formam com o bolsa-escola. A primeira presidente mulher é uma marionete e a esquerda virou direita. Faltou só a tenda para o circo estar completo.

Lúcio faleceu aos 56 anos, em 1968. Nelson se foi pouco mais tarde, em 1980, aos 68. Ambos, porém, ficaram marcados na dramaturgia e literatura brasileiras do século XX. Mais que isso: os dois brasileiros transcenderam, por meio de suas obras, o então vigente costume de fazer uma coisa e falar outra. Lúcio Cardoso, ao destronar a tradicional família mineira, e Nelson Rodrigues, ao exaltar a cultura suburbana carioca, fizeram, cada um ao seu modo, a mais bela ruptura com a hipocrisia que reinava. O sexo sem escrúpulos que Lúcio escreveu, e a nudez que Nelson fez ser encenada ainda deixam a platéia mais boquiaberta que qualquer grandiloqüente tragédia que suceda mundo afora. Qualquer senhora de meia idade passa incólume por um prédio desabando, ou uma criança morta. Tudo vira matéria de fofoca, apenas. Mas a verdade ainda assusta, Lúcio envergonha, Nelson constrange. O caminho começado por ambos, de rompimento com a falsa moral, ainda é um projeto de trilha, mas, certamente, os brasileiros têm em quem mirar exemplo.


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