ponto e vírgula

Opinião sem reticências...

Constance von Krüger

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JULIE & JULIA - Prazeres, obsessões e manteiga

“Julie & Julia” é uma lição de vida. As duas mulheres nos dão um show de vivência, descobrindo sobre prazeres, obsessões e manteiga. Mas muito se engana quem pensa que a história é apenas sobre comida. Poderia ser qualquer objeto, qualquer arte.


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“Julie & Julia” é um filme delicioso, e não é porque fala de comida. A produção de Nora Ephron já poderia ser considerada grandiosa por ter no elenco ninguém menos que Meryl Streep (como Julia), mas vai além. Com a presença também requintada da jovem atriz Amy Adams, no papel de Julie, o longa, de 2009, é baseado em não uma, mas duas histórias reais.

Julie Powell é uma jovem comum – norte-americana, com seus “vinte e poucos, quase trinta” anos, recém-casada, com pouca grana, muitos sonhos e insegurança de sobra. Vive no início do século XXI e adora a tecnologia de então. Ela é também escritora principiante, e gosta de cozinhar, apesar de não ser exímia na função. Porém, ganha a vida em um trabalho maçante em um escritório. Por meio de um livro herdado, Julie descobre uma lenda da culinária – Julia Child. Um livro de receitas escrito pela cozinheira ("Mastering the Art of French Cooking"), há mais de quarenta anos, é a motivação para conhecer mais da vida de Julia, e da culinária francesa, tema do livro. O filme mostra, em um entrelaço interessante das duas histórias, como Julie e Julia são parecidas em seus mundos, tão diferentes entre si. A mais velha tem um marido companheiro e se embrenha na arte de cozinhar para ocupar-se e livrar-se do ostracismo de ser “dona de casa”, em uma França charmosa do meio do século XX. Julie tem uma vida agitada e o papel da comida em sua vida é justamente “desocupar”. Cozinhando, a jovem abstrai o dia que passou, e tem momentos divertidos e de união com o marido, também companheiro.

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O ponto do alto do filme, porém, é outro. Para Julie não bastava conhecer a vida de Julia e inspirar-se nela, era preciso ir além. A garota estabelece para si, então, um desafio que parece enlouquecedor para quem trabalha fora e mora em um apartamento minúsculo, com uma cozinha sufocante – Julie propõe a si mesma reproduzir as 524 receitas do livro de Julia. Com o marido, estabelece um prazo final, para que o projeto não se perca – um ano, 365 dias. E passa a registrar, diariamente, em um blog (naqueles anos, uma experiência inovadora), não só o que cozinhou, mas o que viveu: suas experiências, como aquela receita influenciou em seu dia, a relação com o marido, as queixas do trabalho. À medida que o tempo passa, Julie vai ganhando leitores fiéis, recebe comentários positivos e, enfim, é vista com o reconhecimento que merece, pela exímia escritora que se mostra. A partir daí, então, surge um novo horizonte para Julie. Em paralelo, a garota sente a presença de Julia, sua inspiração, que funciona como uma amiga imaginária, uma confidente, uma incentivadora. Alguém que, definitivamente, é a responsável por sua nova forma de ver o mundo.

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“Julie & Julia” é uma lição de vida. As duas mulheres nos dão um show de vivência, descobrindo sobre prazeres, obsessões e manteiga. Mas muito se engana quem pensa que a história é apenas sobre comida. Poderia ser qualquer objeto, qualquer arte. A mensagem é outra: é sempre preciso começar de algum ponto. É sempre preciso recomeçar de onde tudo parece estar perdido. Julie viu na cozinha e no registro diário a possibilidade de expandir seus horizontes, conhecendo melhor a si mesma e a alguém que a inspira. Abandonou a mediocridade do seu trabalho e mergulhou na grandeza de si mesma. Que saibamos todos encontrar um projeto que nos abra a visão e nos dê a dimensão de nós mesmos. E que tenhamos uma inspiração como Julia, ainda que ela seja perfeita apenas onde mais importa – em nossas próprias mentes.


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