ponto e vírgula

Opinião sem reticências...

Constance von Krüger

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VAMOS VER O POR DO SOL? - Conto

Naquela tarde, souberam que estariam juntos até o fim do mundo.


Nem bem havia nascido e Matheus era chamado de Theus, moreno, alto, criança bonita, dessas que arrancam suspiros e inspiram cuidados maternais para que as bochechas não sejam severamente danificadas por apertões de tias corujas. Bia, antes Beatriz, nasceu feia, com a tradicional cara de joelho, magra, esquálida, pálida e franzina. Não era de se esperar outra coisa, após uma gravidez conturbada, em um nascimento prematuro e filha de pais não afortunados esteticamente.

Aos seis anos, Theus já sabia ler, escrever, e fazer as primeiras contas matemáticas. Bia, no mesmo ano, também já era alfabetizada, isso aos quatro anos de idade. Na cidade onde morava, fria e interiorana, as escolas antecipavam o aprendizado. Já nas terras ensolaradas onde vivia a família de Theus, a prioridade de qualquer criança era aprender a pegar onda, andar de bicicleta no calçadão e arranhar notas no violão para usá-las mais tarde, sentado na areia da praia. Theus crescia e ficava cada dia mais moreno, mais bonito, e mais carioca. Bia, aprendendo a fazer poemas, sendo a melhor aluna e cantando no coral, despontava como a única garota bonita da família, tão mineira.

Aos quinze, Theus ganhou uma prancha nova para surfar, Bia ganhou uma prancha também, porém para alisar os cabelos, tão rebeldes. Theus, ensaiando novos acordes, gostava cada dia menos dos próprios amigos, Bia não tinha amigos. Ambos queriam ir embora. Para onde? Embora, e era só. Bia cursou Belas Artes, Theus cursou Música. Bia foi para a capital, fumou um baseado todo dia, namorou diversos Thiagos, Sergios, Fredericos e até um Darío, mas nunca amou. Theus nem bebia, era adepto do açaí, jamais namorara, mas amara o tempo inteiro. Bia traduzia em poemas a espera de um amor em que ela não acreditava. Theus musicava os sentimentos que não sabia sentir, e o amor que nunca pudera dar. Bia dava dois destinos aos manuscritos – gaveta ou lata de lixo. Theus mostrava as composições aos muitos amigos. Bia fazia rodas de sarau com desconhecidos, Theus rodava a cidade com suas rodas de amigos.

Aos trinta, Bia rodou e foi parar na cadeia, era porte de drogas. Na mesma noite saiu, mesma noite em que Theus rodava a cidade com seus sucessos entoados de bar em bar, em que o cachê era a cerveja, que já agora ele bebia. Bia odiava cerveja, preferia algo mais forte, Theus não suportava mais que três copos e já via o mundo rodando. Em dezembro, Bia fora arrastada pelos colegas para a praia, que detestava. Dormia na pousada, acordava para o almoço, e ia ver o fim de tarde cair. Theus acordava cedo, comia uma salada de frutas, surfava o dia todo, e depois sentava na areia para aproveitar os restos de sol.

Naquela tarde, Bia descia as escadas do calçadão, quando, como sempre, tropeçou. Foi a mão de Theus que ela encontrou, que a segurou, e a colocou de pé novamente. Foi a mão que não a soltou nunca mais. “Vamos ver o por do sol?”, disse Theus. Bia, pela primeira vez, gostou da praia, bebeu cerveja. Theus ouviu poemas e, sem precisar cantar, foi embalado pela certeza de que não haveria mais mundo sem Bia. Bia não queria vida sem Theus. Naquela tarde, souberam que estariam juntos até o fim do mundo.

Era 21 de dezembro de 2012, e durante seu primeiro beijo, Bia e Theus foram engolidos pela Tsunami que serviu de prelúdio ao fim do mundo.

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