ponto e vírgula

Opinião sem reticências...

Constance von Krüger

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A Carnificina de Polanski

Roman Polanski, com a adaptação de “Deus da Carnificina” (2011), faz um verdadeiro massacre. É a mortandade das aparências, o extermínio das hipocrisias. Estrelado por Jodie Foster, John C. Reilly, Kate Winslet e Christoph Waltz.


Segundo o “Dicionário de sinônimos e antônimos da Língua Portuguesa”, Carnificina Sin. Mortandade, matança, extermínio, morticínio, chacina.

Carnage, o termo em inglês, é o nome que Roman Polanski deu ao seu filme, rodado em 2011. No Brasil, a tradução foi “Deus da Carnificina” e, em Portugal, “O Deus da Carnifina”. Baseado na peça de Yasmina Reza, “Le Dieu du Carnage”, o longa, de apenas 80 minutos, nos convida a ver quatro protagonistas despindo-se de suas máscaras sociais e encarnando suas verdadeiras personalidades, quando postos em conflito.

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[Spoiler] A trama começa com uma tomada distante de uma briga de garotos. Vê-se a disputa por um motivo que desconhecemos e, em seguida, um dos meninos bate no outro. Após a confusão, dá-se início a um encontro que teria o propósito de resolver o imbróglio. Penelope Longstreet (Jodie Foster) e Michael (John C. Reilly), pais do garoto agredido, recebem em seu apartamento Nancy (Kate Winslet) e Alan Cowan (Christoph Waltz), pais do agressor. Em uma breve conversa, Polanski nos apresenta aquelas que são as personalidades públicas, por assim dizer, dos quatro protagonistas. Os donos da casa são o típico casal de classe média de bons valores – ela escreve sobre as mazelas africanas e ele, um bom marido, concorda em tudo com a esposa sistemática, que rege a casa segundo sua ótica de psicótica com limpeza e arrumação. Já os visitantes deixam transparecer alguma tensão que logo fica evidente – ela é absolutamente apegada às aparências, linda e bem vestida. Ele só pensa em trabalho e deixa interferir, durante toda a película, seu aparelho telefônico que lhe traz inúmeras pendências e problemas de primeira urgência, o dinheiro parece ser o ente que o governa.

O elenco fabuloso, com estrelas de primeira grandeza, em um trabalho conjunto com uma direção consciente e primorosa, cria uma atmosfera absolutamente teatral – e profundamente sufocante. O filme é categorizado, em primeiro momento, como uma comédia. Mas há que se discordar, ou pelo menos fazer-se um adendo. Se é comédia, é das mais ácidas já realizadas; mas vai muito além.

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Após a conversa inicial, os pais não chegam a um acordo de como resolver o problema que os une naquele apartamento (que será o cenário de todo o filme). Logo concordam, então, em adiar o problema para a noite, visto que o pai visitante, Alan, deveria trabalhar. Porém, ao rumarem para o elevador do edifício, novas questões vão surgindo, e as diferenças começam a aparecer com mais evidência. Voltam, então, para mais um café. As cenas, em sequência, nos mostram uma história contada em tempo real – o tempo que ficamos no cinema, ou no sofá, vendo a história deslanchar, é o tempo em que ela acontece. Pequenos elementos vão criando a tensão que virá a explodir, mais cedo ou mais tarde – desde o bolo caseiro servido, o uísque que abre ainda mais a janela de vulnerabilidade, até os incontáveis telefonemas recebidos pelo personagem de Waltz. Conflitos internos, entre os casais, são as iscas que os quatro, involuntariamente, mordem, e que os deixam desprotegidos a se exporem como são, especialmente em momentos de contrariedade.

Jodie Foster opera uma verdadeira cirurgia plástica em suas feições, de engajada política de face serena, passa a uma histérica e autoritária, de dentes rangendo e pálpebras tremendo, e voz cada vez mais estridente. Reilly passa de um submisso e obediente marido ao mais irritadiço homem, disposto a remover a hipocrisia da esposa com as próprias mãos; seu tom de voz o denuncia. Waltz, o workaholic mal educado e sempre apressado nos brinda com fina ironia e olhares sarcásticos capazes de enlouquecer o mais controlado dos humanos. E mesmo ele, de sua aparência rica e sóbria, vai decaindo e deixando-se tomar pelo mais ordinário sentimento de impaciência, que culmina com sua esposa aniquilando de vez seu maior bem – encharca seu celular. Já Winslet despeja sua preocupação com as aparências na épica cena do vômito sobre a mesa de centro da casa anfitriã – é a metáfora perfeita para o que acontece entre aquelas quatro paredes. O vômito de Nancy suja o livro de arte que Penelope expõe como seu triunfo contra o mundo comum, contra a mediocridade. A dona da casa é o tipo de mulher que acredita que a sociedade a respeitará mais e a virá com melhores olhos se ela puser, sobre sua mesa de centro, algo alheio à banalidade da televisão, da internet, dos jornais de fofoca – o livro de arte é a grande metonímia da hipocrisia da personagem de Foster. O vômito da personagem de Kate Winslet, por sua vez, mancha irreversivelmente tal troféu. Estão, os quatro, irremediavelmente expostos. Suas máscaras estão desfeitas.

A aflição do espectador em ver aquela situação por fim resolvida, ou, pelo menos, cada personagem em seu lugar – os visitantes indo embora e os moradores voltando a si – é uma chave que revela o que o filme opera em quem o vê. Quando estamos mais acostumados e, de certa forma, apegados aos personagens, a exibição é para sempre interrompida, as luzes se acendem e somos obrigados a enxergar os personagens – e suas ridículas tentativas de esconderem seus instintos – em nós mesmos. Somos compelidos a entender que nossas fantasias e disfarces também escorregaram rosto abaixo durante a exibição, e nem nos demos conta. Nosso ímpeto de afastar as situações constrangedoras e tensas do centro da tela era também a inútil tentativa de não perceber que aquela desconstrução se encaixa em qualquer ser humano. Inclusive, para nosso horror, em nós mesmos. [Fim do Spoiler]

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Polanski, com a adaptação de “Deus da Carnificina”, faz um verdadeiro massacre. É a mortandade das aparências, o extermínio das hipocrisias. Os personagens dialogam com os espectadores em tal medida que, no final da exibição, estamos nus. Polanski nos despe como despe os quatro protagonistas. Pelados de incoerência, de mentira, de hipocrisia, de falsidade. E o pudor e a vergonha, obviamente, são os sentimentos que nos vexam – embora não admitamos.


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