ponto e vírgula

Opinião sem reticências...

Constance von Krüger

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O Retorno, de Dulce Maria Cardoso

Ensaio sobre "O Retorno", romance da portuguesa Dulce Maria Cardoso.


“O sol pode cegar-te, mas não te importes, se lhe voltas as costas a tua sombra esconde o que procuras.”

A adolescência é conhecida como a fase em que as pessoas tentam encontrar seu lugar no mundo – descobrem a si mesmas e ao outro e, na busca incessante de sentido, acabam por construir seus valores e personalidades. Rui não foge à regra: aos quinze anos, o narrador protagonista do romance “O Retorno” (2011), de Dulce Maria Cardoso, é lançado em busca de sua identidade. Rui, porém, não vive apenas as angústias típicas da juventude, ele e sua família fazem parte de um grupo que deve voltar a Portugal, vindo das colônias africanas que estão se tornando independentes. Essa migração compulsória, ocorrida em 1975, foi uma das consequências da Revolução dos Cravos, que aconteceu em terras lusitanas no ano anterior. Entretanto, como a maioria dos quase quinhentos mil “retornados”, Rui e sua família nunca haviam estado em Portugal, que não passava de uma referência no mapa nas aulas de geografia em Luanda, capital da Angola, onde nasceram e viveram toda a vida. Aqueles portugueses “de fora” falavam a língua de Camões, cantavam o hino nacional e orgulhavam-se dos feitos imperialistas de seu país sem jamais tê-lo conhecido. A imaginação e as histórias contadas pelos mais velhos eram as maiores fontes de informação sobre a metrópole. Seria possível, porém, retornar para onde nunca se tinha saído?

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A narrativa começa com a apresentação dos quatros personagens centrais – Rui, sua irmã Milucha, seu pai e sua mãe. Brevemente, são contados ao leitor os traços principais de cada um, e fica evidente que todos têm características, sobretudo psicológicas, marcantes, que serão trabalhadas – e até alteradas – ao longo do romance. Estão sentados à mesa de sua casa em Angola, preparando as malas e as intenções para “voltarem” a Portugal. A ida é obrigatória, os negros já ocupam toda a cidade e matam, ou tentam matar, os brancos portugueses que encontram. Precisavam retornar, à la “A volta dos que não foram”. Sem poder levar todos os pertences da casa, separam o que acreditam ser mais indispensável para o início da nova vida. O embarque, porém, não acontece da forma como Rui, o narrador, esperava. A chegada à metrópole tampouco é como um dia a família sonhou que seria.

Rui e sua família não encontram uma casa, nem são recebidos pelos parentes distantes que sabiam ter. Em vez disso, vão viver, como outros tantos, em um hotel pago pelo governo. Ainda que luxuoso, aquele estabelecimento jamais se torna lar, e, por mais que tente, Rui não se sente pertencente àquele lugar. A frase “Um quarto pode ser uma casa e este quarto e esta varanda de onde se vê o mar é a nossa casa.”(p. 163) é repetida diversas vezes, como numa tentativa inconsciente, ou consciente, de aceitar tal verdade. Fraqueja, por vezes, como quando diz: “Não vamos poder ficar para sempre neste quarto com esta varanda de onde se vê o mar e por isso a mãe e a minha irmã têm razão, este quarto com esta varanda de onde se vê o mar não é uma casa. Muito menos a nossa casa.”(p. 172) Em seguida, retoma a busca pela aceitação, e volta a dizer “Um quarto pode ser uma casa e este quarto com esta varanda de onde se vê o mar é a nossa casa enquanto não vamos para a América.”(p. 173).

O leitor é apresentado a um Portugal diferente. Não é exaltada a cultura, muito menos são citados os azulejos azuis, o fado melancólico e a gastronomia rica em frutos do mar. Portugal dos olhos de Rui é rude, inóspito, por vezes quente demais, por vezes frio demais. O mar, quando não rebenta em ondas violentas, é gelado de trincar os ossos de quem ouse ser banhista. Tudo é novo, mas nada é novidade – existe sempre a apatia, a vontade de estar de volta aonde se foi feliz, tempos atrás. As pessoas são outras: os amigos Lee e Gegé, de Luanda, são substituídos por Mourita e Paulo, dois irmãos que se tornam seus companheiros no tempo em que passam no hotel; como já não há Paula, há Teresa, como namorada do colégio. Há também novidades, por certo comuns para um adolescente – a descoberta do sexo com uma mulher mais velha, o medo em razão da necessidade de tornar-se responsável, o amadurecimento precoce diante de uma situação de conflito, o limiar entre o correto, os valores e o que deve ser feito. E os cigarros, a bebida, a humilhação de vestir roupas doadas, os impulsos masculinos refreados em respeito à mãe e à irmã. A surpresa no contato com pessoas tão diferentes das com quem tinha sido criado, como os rebeldes Pacaça e João Comunista.

A crueza com que Rui relata o que o cerca e o que a ele acontece não é mais que reflexo que sua condição de adolescente cujo crescimento e amadurecimento foram atropelados pela necessidade do existir como homem. Mas a aspereza da situação e de seus efeitos contrasta com a delicadeza e as sutilezas que alcançam o leitor que consegue perceber a fragilidade, tanto dos personagens, como da história em si. Há momentos ternos em que toda a secura do relato esmaece, como quando Rui mostra que sua irmã, tamanho o desengano de estar onde não queria, deixa de ser quem sempre foi, e acaba deixando de implicar com ele, de dedurá-lo para a mãe e torna-se cúmplice, como se as dificuldades aproximassem os dois.

A autora Dulce Maria utiliza uma técnica narrativa de caráter mais psicológico. Existe a linha cronológica e toda uma sequência de fatos – a história tem um dia de início, um ponto final e um meio do caminho permeado de fatos que se sucedem normalmente. A narrativa de Rui, porém, faz orbitar, em cada fato contado, inúmeras digressões e recordações. Ao passo que relata com uma precisão absurda o que acontece em sua trajetória durante pouco mais de um ano, o narrador preenche todos os espaços que encontra com citações do passado, expectativas para o futuro e comparações entre o que é e o que deveria ser. O leitor, entretanto, não encontra dificuldade para acompanhar o que relata o garoto. E, apesar da linguagem precisa e extremamente clara, guardam-se ainda lacunas a serem preenchidas por quem lê o livro. Enigmas sutis são desvendados a um leitor mais atento, como referências metafóricas: a toalha de mesa despedaçada antes da partida de Luanda é um exemplo claro da desconstrução que dá início à trama. Não existe momento em que não acreditemos que a história de Rui é verdadeira; sensação talvez alcançada por ter o relato um fundo (ainda que enevoado) autobiográfico. (Dulce Maria Cardoso migrou no mesmo movimento sobre o qual escreve, em 1975, aos 11 anos, com a família.)

Como Rui, um adolescente buscando seu lugar ao sol, inúmeras pessoas estão, cada uma do seu modo, tentando pertencer à nova casa que lhes foi imposta. Em poucos meses, pessoas tiveram que abandonar a infância metafórica, como lugar de segurança e privilégios (representada por Angola) e atiraram-se no novo, de maneira imposta, como quem chega, sem querer, à vida adulta. Como a adolescência, o processo de transição foi conturbado e pleno de inseguranças, e a existência da vida em um hotel desativado (que não é um lar, e tampouco é local de férias) é a representação de tal instabilidade. A ida de Angola a Portugal foi o crescimento brusco e desajustado da população retornada. Rui é uma metonímia, é o adolescente em crescimento de forma literal.

Por dialogar com um fato histórico real, o romance assume um caráter documental. Por este motivo, Rui e sua família, bem como os outros personagens, tornam-se representação de milhares de pessoas, que formaram uma massa portuguesa que o próprio Portugal não era capaz de receber. Cada menção a um novo personagem dá a impressão de que aquele é mais um rosto verdadeiro de alguém que esteve presente em tal evento dos anos 1970. Essa alusão ao de fato ocorrido, somada à linguagem precisa, faz com que exista mais que verossimilhança no romance de Dulce Maria Cardoso – existe história, existe realidade, existe verdade.


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