ponto e vírgula

Opinião sem reticências...

Constance von Krüger

Fale comigo pelo: [email protected]

O aniversário de Fernando Pessoa

Como seria a festa de aniversário de Fernando Pessoa?


Noutro dia sonhei que era convidada à festa de aniversário de Fernando Pessoa. Seja porque o poeta fascina – ou os poetas fascinam? – ou porque o convite foi-me endereçado com a delicadeza de meu nome completo no campo do destinatário, sei que logo concordei com a proposta. Quem não haveria de concordar? Não sei o que me motivou o sonho: seria a perene admiração por Pessoa, ou algum motivo específico poderia ter levado meu inconsciente a querer soprar as velas com o aniversariante? Seria o fato de o poema “Aniversário”, de Álvaro de Campos, intrigar-me a tal ponto de ser lembrado quase que diariamente? Ou, talvez, a motivação viesse da releitura de “Mensagem”, exemplar antigo que cheira a guardado, mas que tem sido companheiro de cabeceira nas últimas noites? Pouco importava, interessava apenas a distinção e a alegria por ter sido invitada a participar de um grandessíssimo evento que marcaria (como depois concluí, acordada, fazendo contas) os 125 anos do maior.

Logo surgiram as dúvidas: aniversário de Pessoa? O que poderia levar para oferecer como presente? Como seria a disposição das mesas? Quem seriam os convidados? E seus heterônimos, haveriam de comparecer? Ora, mas se heterônimos, não deveriam eles estar também comemorando os anos? Heterônimos aniversariam no dia em que surgiram ou no mesmo dia em que o ortônimo? Aliás, heterônimos aniversariam? Tantas questões permearam o sonho – e o sono – e não foi difícil perceber que a ansiedade levava-me aonde eu não queria: estava a cada reflexão mais próxima do despertar, e o onírico parecia mais e mais distante. As tentativas de racionalizar aquele convite levavam-me para longe da fantasia, ou do enlevado, e eu, agarrando-me por apego, curiosidade ou repentina paixão, não me deixava acordar, não queria me desprender. Mas aconteceu. O choro da incompletude foi amargo, e o dia que se sucedeu, vazio. Como era possível ter sido convidada para a festa do próprio Fernando Pessoa e não poder comparecer? A injustiça da situação comparava-se, em grandeza, à frustração por não poder sanar as dúvidas que o real me trouxera. Não saberia, jamais, quais eram as características da festa. No mesmo dia, quando a noite chegou, quis fechar os olhos e imaginei fortemente as cenas que queria viver – em vão, o sonho jamais retornou. Nos dias que se seguiram não pude tampouco sonhar, e contentei-me a continuar a leitura de “Mensagem”, agora com a vontade de rabiscar, a lápis, indícios de como poderia ser tudo aquilo que perdi, embora saiba que jamais, em tempo algum, poema qualquer de Fernando, ou de Alberto Caeiro, ou de Ricardo Reis, ou de qualquer heterônimo (até mesmo Álvaro de Campos), poderá me dizer.

Hoje, mais de uma semana depois, ainda intrigada e curiosa, cheguei à conclusão do que fazer: criar. Se Pessoa não está mais vivo – em biografia, não em obra – e se o convite que recebi, para mim, foi bem real, dou-me o direito de visitar, agora, a festa de aniversário de Fernando Pessoa, e é justa e verdadeira toda e qualquer frase que eu ouse escrever. Chego, agora, à casa de Pessoa.

artes1.jpg

Casa grande e de um patamar, toda de tijolos e com algumas muitas flores no jardim; ou nos jardins, são dois, um de cada lado da construção. Quem me recebe é Ofélia, eles agora vivem juntos. Não preciso dizer nada, nem ela diz... É pequena, ou miúda, como poderia dizer seu namorado (Noivo? Marido?) e tem uma pele linda. Antes que eu possa explicar o motivo da minha visita, ela me dá a mão, entrelaça os dedos nos meus, como se, juntas, rezássemos uma oração. (De certa forma, neste momento comungamos de um momento exclusivo – eu e ela, as únicas convidadas para o aniversário do poeta. Estamos reunidas pelos dedos entrelaçados e, mais, pela crença de que, passada a porta da casa, veremos como estão dispostos Fernando e os outros, a quem ainda não conhecemos a forma. Estamos em oração, em profissão de fé – cremos, ela e eu, na verdade de Pessoa, e, por isso, e pela primeira vez, vamos nos reunir a ele(s)). Ofélia, com a mão esquerda, que é a livre, abre a porta de vidro – inebriada, quase não consigo perceber o mínimo degrau que nos separa da copa, onde, de costas, está um homem sentado, encurvado, talvez um pouco velho. Virando-se, ajeita o bigode, e, ao perceber nossa presença, corre a colocar um chapéu. Não parece ser muito idoso, mas se entrega ao não largar a bengala preta em toda a trajetória cadeira-chapeleira-cadeira. Em seguida, volta-se novamente para a mesa e ficamos, eu e Ofélia, confusas. Eu, por crer haver visto Pessoa, que nos ignorou solenemente. Ela, por não entender bem o que o levou a nos ignorar. Sei de tudo isso, mas ela nada me disse; não conversamos ainda, embora as mãos ainda estejam dadas (como se fossemos uma só). Após poucos, mas longos, segundos de hesitação, seguimos até onde o homem está sentado, e por cima de seu ombro podemos ver que ele, na verdade, faz palavras cruzadas. Não só... Na mão direita (ele é canhoto) está um relógio que marca o tempo que a mão esquerda gasta para completar cada cruzada, e, como um maratonista, parece querer melhorar seu tempo a cada instante. Ofélia e eu nos entreolhamos, sabemos que é hora de andar – aquele não é Fernando Pessoa. Creio eu que seja Mr. Cross: tem as feições de Pessoa, mas não sua alma. E faz palavras cruzadas. Ao cruzarmos o corredor, vemos um homem a olhar fixamente para um telefone: o que estaria ele esperando? Deveria ser o contrário, mas não me surpreendo (não nos surpreendemos, eu e Ofélia) ao notar que, assim como Cross, esse também tem o físico de Pessoa. Seria ele afinal? Não. Ao se virar, posso notar de relance um pequeno crachá em que leio apenas “Bernardo S.”, e ali estão as inscrições de uma biblioteca. A identificação diz que aquele é Bernardo Soares, com quem Pessoa um dia trocou palavras e a partir de então passou a cumprimentar pelas ruas. Ofélia, apertando com mais força minha mão esquerda, dá-me o sinal de que não podemos continuar ali paradas, é indelicado observar uma pessoa que espera uma ligação. A contragosto, ainda perdida na tentativa de me lembrar de mais detalhes de Soares, a sigo rumo à sala. Ou suponho ser a sala, pois nada posso reparar no ambiente ao me deparar com a cena que ali se dá. Muitos e muitos Pessoas pelo lugar. Não Pessoas, obviamente. Mas há ali uma reunião de muitos homens fisicamente idênticos, todos eles portando o mesmo chapéu, o mesmo bigode, alguns de bengala, outros sem, uns mais velhos, outros mais jovens. Difícil dizer como percebo suas diferenças de idade, pois em nada se distinguem. Mas é certo que uns têm em si mais experiência que outros. Ofélia trafega com naturalidade entre eles, embora saiba eu, com certeza, que ela nunca presenciou nada parecido – parece que toda sua vida com Fernando existe a partir do momento em que estou com ela. Vamos andando em círculos, e de repente a sala parece maior, mais espaçosa, e já nem sei por onde já passamos, por onde ainda temos que passar. Tampouco sei o objetivo de Ofélia ao fazer um percurso tão minucioso, mas penso que ela deseja encontrar Fernando. É impossível não parar agora. Vejo um homem absolutamente ensimesmado, com uma pilha de livros no colo, e o primeiro, alguma antologia poética tradicional, é lido minuciosamente. Quero lhe perguntar quais são aqueles exemplares, do que ele se ocupa. Mas, quase que por instinto, vejo que aquela leitura perfeccionista o denuncia, e Ricardo Reis, ou o Doutor Ricardo Reis, afasta a mão que segura os livros. Posso agora ler seus títulos, e minha suposição se confirma. Não poderia ser outro, se carrega consigo clássicos da literatura mundial, uma antologia poética cuja métrica é quase uma projeção arquitetônica, e, por debaixo do paletó entreaberto está um estetoscópio reluzente. Logo aparece Bernardo Soares, que lhe comunica, sem que preciso seja dizer uma palavra, que o livro que ele procura não existe na biblioteca em que trabalha – era esta a confirmação que esperava ao lado do telefone. Estou estarrecida. Como podem saber o que o outro diz sem que falem? Como pode Ofélia não estar surpresa? Como posso eu acompanhar tais “diálogos” e também compreender tudo que não é dito? Não há tempo para resposta, já estamos novamente flanando pela sala. Tomo cuidado para não tropeçar em tantos pés, alguns sentados, pendurados em pernas cruzadas, outros paralelos ou formando apertados ‘V’s por estarem equilibrando corpos que já abandonaram seus assentos. Há ainda uma pequena quantidade que caminha de um lado para outro, como que ainda decidindo onde querem ficar. Não consigo contar quantos são, há em mim uma repulsa que, ao perceber como são idênticos, embrulha o estômago. A loucura em confiar em Ofélia é nada se comparada à cena que vejo adiante. (E já não é loucura, quando sinto que sua mão continua atada à minha e pensamos em nossa caminhada como se fossemos uma.) Olho de novo a cena – ali está um Pessoa sentado em uma poltrona mais alta, e ele é claramente o mais velho, o mais sábio. E discursa para alguns outros Pessoas, mais jovens, sentados. Mas discursa calado. Impressiona-me que ninguém fale nenhuma palavra, e os ruídos tradicionais de pés arrastando, ou cadeiras sendo empurradas, também não existam. Mas tampouco estamos em silêncio. Há um burburinho silencioso, um barulho sem som, que não pode ser equiparado à ausência total de ondas sonoras – é um silêncio inquietantemente ruidoso. Chegamos mais perto. O homem, na verdade, não discursa, mas recita (silenciosamente) um poema. Trata-se de “O Guardador de Rebanhos” – diante de nós está Alberto Caeiro defendendo a ausência de metafísica, e dizendo que as coisas não são mais que coisas. Tem um domínio total sobre o que fala, e sua ciência parece agravar-lhe a idade, mesmo que essa só seja maior que a dos outros em sapiência. Sentado em volta dele, conto cinco ou seis Fernandos, olhando atentos e procurando apreender o que diz o mestre. Bem à sua direita está alguém que fuma incessantemente, e logo se levanta e vai à janela. Não há porque ter certeza, mas algo me diz que aquele é Álvaro de Campos, que procura em outras janelas a vista que possuía da sua própria, de onde via a Tabacaria. Álvaro parece ter em si uma urgência em sentir o ambiente, mas não consigo explicar como o autor de “Aniversário” me perturba. Gostaria de lhe perguntar como cada um ali vivencia esse dia especial, e que tipo de festa é aquela; e mais: onde está Fernando. Mas há versos que ele um dia escreveu que me dizem que devo esquecer o evento de que vim tratar: “Hoje já não faço anos. / Duro. / Somam-se-me dias.” Percebo, então, que ele não está aniversariando. É apenas mais um dia em sua vida de heterônimo, mais um dia em que ele apenas continua existindo. Estou fascinada por Álvaro de Campos e quero me aproximar. Sinto que é quem pode dissolver minhas últimas dúvidas, mas a mão de Ofélia me castra. Olho em volta, vejo ali um Barão de Teive, um Alexander Search, um Frederico Reis, aparentado de Ricardo, com quem conversa, e um que não consigo saber o nome, mas que parece já estar morto – seria alguém convidado por comunicação mediúnica? São os que consigo identificar, mas há muitos outros. Repito o pensamento de que não os consigo contar, pois a certeza de já os haver contado todos e o receio de ainda não ter contado nenhum me levam ao ponto de enlouquecer. Volto os olhos a Álvaro, mas já não o acho. Percebo a mão aflita de Ofélia, e como se um pássaro houvesse dito em meus ouvidos, sei o que preciso fazer. Ofélia está, na verdade, buscando quem é seu Fernando no meio de tantos corpos ali presentes. Ofélia buscou a vida toda encontrar quem era seu homem, em meio a tantos outros homens reais. A mão que ela me ofereceu, e que ainda segura a minha, é sua bengala, pois quem a conduz sou eu: seus esforços estão todos voltados a encontrar Fernando Pessoa. E como em outra epifania, logo me é revelada a verdade que Ofélia não quer ver. Por entre tantas personalidades reais, Fernando Pessoa é, e não é. Sua identidade (única) está ali presente, mas ela jamais o vai encontrar. O poeta é um fingidor. E por acreditar no que finge, ele é, sem mentira, mas com fingimento, cada vez um. Pessoa é uma pessoa dentre seus muitos heterônimos, de quem nem Ofélia sabe todos os nomes. A cada sentimento de uma pessoa naquele ambiente, Pessoa ali está. Em cada pessoa presente, exceto em mim e em Ofélia, Pessoa ali está. Conflitante, conflituoso e por vezes, confuso. Mas está. E Ofélia não percebe. De repente, não pensamos mais juntas. Tenho que ir embora, ela tem que ficar. Eu percebo o não-lugar do poeta, ela insiste em o encontrar. Mas não posso largá-la sozinha nessa busca infrutífera e curiosa. Deixo, portanto, minha mão segurando a dela. E foi ela, Ofélia, que me mostrou quem são, ou quem é, Pessoa – ainda que ela não o saiba. Levo, portanto, sua mão condutora na minha. Nossas mãos se separam, mas ainda a seguro e ela ainda me guia. Em sua outra mão, ela agora segura as cartas que um dia recebeu de seu amado. Já na minha mão solitária, trago a urgência de terminar esse relato.

Finalmente descobri: Não há velas a serem sopradas no aniversário de Fernando Pessoa. Quem muitos é, aniversaria nunca, ou todo dia.


version 1/s/// //Constance von Krüger