ponto e vírgula

Opinião sem reticências...

Constance von Krüger

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PASSAGEIRO DO FIM DO DIA, de Rubens Figueiredo

Resenha sobre o romance "Passageiro do Fim do Dia", de Rubens Figueiredo, de 2010.


Quanto tempo pode durar uma viagem de ônibus entre o centro de uma grande cidade e um bairro pobre de sua periferia? Em “Passageiro do fim do dia”, de 2010, Rubens Figueiredo apresenta um redimensionamento de tal extensão temporal, e convida o leitor a acompanhar Pedro, o protagonista, em uma extenuante e demorada trajetória até o Tirol, bairro miserável em que mora sua namorada, Rosane. Lá, Pedro passa os fins de semana, e já acostumado ao caos do trânsito de sexta-feira à tardinha, entra no coletivo sem muita pressa de chegar.

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A narrativa apresenta mais de um foco temporal; isto é: Pedro, da primeira à última página do romance, encontra-se sentado – ou de pé – no ônibus que o levará ao encontro de Rosane. Há, entretanto, para além do fluxo caótico de veículos, outro fluxo que demarca acontecimentos na trama: a consciência da personagem. Sem tomar as rédeas do próprio pensamento, o homem é instigado e influenciado pelo que vê, ouve, sente e se lembra durante o percurso. Tais gatilhos disparam sequenciais digressões, divagações e recordações, que preenchem a trivialidade de estar em um transporte coletivo de uma grande cidade brasileira no final do dia.

A caracterização dos personagens – seja de forma particular ou coletiva – é feita com maestria pelo autor. Rosane, a namorada de Pedro, é a personagem mais relembrada pelo protagonista, que a descreve ora sentimentalmente, ora com histórias aparentemente despretensiosas, mas que ajudam a moldar a personalidade a que se fica familiarizado no correr da leitura. Assim como ela, seu pai, sua tia, seus vizinhos do Tirol, e as personagens por ela introduzidas – por meio da rememoração de histórias que um dia ela contou ao namorado – ganham contornos tão bem delineados que passam a figurar no imaginário do leitor com naturalidade. Os “casos” ou acontecimentos que se sucedem com tais personagens, despertam reações mais humanas, sensíveis e de proximidade com a realidade, portanto. De forma análoga, a coletividade é construída sob um olhar atento do protagonista que, colocando-se na posição de observador se permite ver além do que a aparência dos seus companheiros de condução apresenta. Em diversas passagens, Pedro divaga sobre a vida daquelas pessoas, quem são, o que fazem, com quem se relacionam.

Há ainda a presença de elementos exteriores ao ônibus e à consciência, como a rádio que anuncia a cotação do dólar, toca músicas e funciona, também, como disparadora da imaginação de Pedro. Entretanto, o elemento extra que mais se destaca na narrativa – e explica alguns de seus traços neonaturalistas – é uma biografia do inglês Charles Darwin, que o protagonista leva na mochila e saca algumas vezes em busca de distração. Como o cientista, que observava e categorizava animais, e buscava explicar suas relações, o passageiro comporta-se também como observador, e tenta entender e linearizar as relações sociais que observa ou que rememora (seja essa memória a de sua vivência, ou a da vivência alheia, que lhe foi contada). Assim, o rapaz que sofreu vivências traumáticas (que lhe deixaram sequelas inclusive físicas) e escolheu partilhar a realidade de um lugar pobre com a mulher amada comporta-se como um cientista empírico. Há, porém, inúmeras notas de subjetividade na narração, e, como é possível notar, na observação de Pedro, além do rompimento com a ideia do determinismo (ideia presente no naturalismo clássico), o que não permite uma classificação engessada e categórica sobre as características de gênero do romance.

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Com “Passageiro do fim do dia”, Figueiredo alcança ainda a crítica social – em trechos consideráveis é patente a posição questionadora e instigada do narrador acerca de temas em que figuram: pobreza, exclusão, preconceito, caos urbano, animalização de seres humanos e outros. Sua qualidade maior, entretanto, é não transformar tais críticas em uma produção panfletária. A arte configura-se como tal, e só – a crítica é uma de suas características, mas não o seu objetivo, o seu fim. Belíssimo exemplar de uma contemporânea literatura brasileira.


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