por entre letras

...discorre a cena, escorre a vida

Ana Maria Lima

Jornalista, fotógrafa, pós-graduada em comunicação e atualmente estudante de psicanálise

De um amor que não seja insano

O que há no amor que pode desencadear a loucura? Muitas coisas... dentre elas as ambiguidades - Eros e Tanatos, amor e pulsão de morte, entrega e demanda, presença e ausência, altruísmo e egoísmo...


O amor romântico, substância de clássicas obras de arte, atravessa séculos e seguem nos fascinando mesmo em nossa época de amores líquidos. São ainda melhores as tramas em que os amantes foram impossibilitados de ficar juntos. Histórias rompidas comportam promessas daquilo que poderia ter sido, e aí cabem coisas que tocam o infinito - Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Ennis e Jack de Brokeback Mountain e inúmeras outras.

Mas no oceano do amor, quero me deter na questão do amor louco. Não falo de loucuras de amor, cenas pontuais; mas sim do amor que leva a um estado de loucura, devastação e morte. De tudo que já ouvi o que melhor concebe a desventura do amor louco é a história, belamente retratada na poesia da música ‘El Muelle de San Blas’ da banda mexicana Maná.

O Clipe da música da banda Maná foi gravado no local onde a história real se passa – Cais de Sán Blás

A música conta a história real de Rebeca Méndez Jimenéz conhecida como a louca de San Blás. Sua desventura começou em 1971, ano em que viveu um intenso romance com um pescador chamado Manuel, aos 17 anos. Três dias antes do casamento Manuel teve que partir rumo ao norte do oceano pacífico. Na derradeira despedida ele jurou que voltaria, e ela jurou que esperaria. Desde então Rebeca ia todos os domingos ao Cais de San Blás vestida de noiva, para que Manuel a reconhecesse em seu retorno. Passaram anos e Manuel nunca mais foi visto, dizem que morreu numa tempestade no mar. Rebeca se tornou um símbolo da espera pelo amor e pagou com a perda da razão. Os vizinhos do Cais tentaram demovê-la para um manicômio, ela resistiu, dizendo que já havia se enraizado no mar e que dali ela não sairia. Esperou por seu amor até exatamente dois anos atrás, dia 16 de setembro, quando morreu aos 63 anos.

imagen_nota_1348177303-0.jpg Rebeca se tornou um mito de amor e espera

Algumas pessoas colocam a demanda de amor o centro de suas vidas. Há na literatura algumas histórias semelhantes, de dedicação de uma vida inteira ao amor ausente - Penélope esperou durante vinte anos pelo retorno de Ulisses da guerra de Tróia na ‘Odisseia’ de Homero – e Florentino por 51 anos, esperou por sua amada Fermina em ‘Amor nos tempos de cólera’. Alimentados pelo o amor de Aristófanes, os amantes seguem na crença de que há duas metades que podem se unir em tanto amor e intimidade ao ponto de uma alma adivinhar o que a outra deseja, mesmo sem que a outra diga o que é de seu desejo. Na continuidade dos diálogos no Banquete de Platão, Sócrates desvenda o caráter narcísico do amor. Se o amor é desejo, só se pode desejar algo que não se tem.

Lacan evoca a impossibilidade da relação sexual, e aí a idéia de amor romântico faz suplência a esse ponto faltante. Aquele lugar que nada nem ninguém pode preencher, a saber, o vazio estrutural, é neste espaço desejante, é aí que colocamos a demanda de amor. O furo intamponável que nos permite continuarmos desejantes. A fantasia do amor, a plenitude de fazer UM a partir de DOIS, tenta preencher esse furo. As coisas seriam mais fáceis se o desejo não fosse o que ele realmente é, deslizante, fugidío, desejante daquilo que não temos, passando para outro objeto tão logo obtemos o objeto desejado anteriormente. Só algum tipo de separação pode provocar desejo.

erosepsique-616x300.jpg Eros e Psique se enamoraram, mas ela não podia ver sua face. Psique não resistiu a curiosidade, viu a face de Eros e o perdeu - O amor não permite desconfianças - mas depois de sacrifícios impostos por Afrodite, reconquistou o amor de Eros

E neste impasse do desejo, muitas pessoas são pegas pelo desejo na via da expectativa, amam amar, precisam mais da ausência do que da presença, porque a presença acabaria com a idealização e o desejo. Paradoxalmente este amor é sustentado pelos obstáculos. Homens e mulheres, mais mulheres do que homens, fazem grandes apostas em parceiros-promessa, custando-lhes tempo, dedicação e até dignidade. Um parceiro-promessa pode ser um alcoolista ou toxicômano causando muitos problemas à mulher que o ama e espera por sua cura. A ‘louca do cais’ pode estar um pouquinho nas mulheres que escolhem amar um homem comprometido, pelo dia em que vai se separar e dar se por absoluto àquela que o espera. Homens frequentemente traídos ou abandonados esperam que um dia sua amada reconheça a verdade de seu sentimento e receba todo o céu que a ela quer dar. Mulheres que sofrem agressões físicas e psicológicas contínuas de seus parceiros, e retiram as denúncias porque esperam pela redenção de seus amados.

E há mais uma gama de situações em que a fantasia de amor absoluto faz uma escolha de objeto - causa de desejo - que venha não só sustentar o desejo, mas também satisfazer um gozo masoquista, comportamento servil e espera de reconhecimento do Outro. E assim Rebeca seguiu até o fim protegida e segura na sua fantasia de amor. Um amor eterno e com final feliz, sem a dolorosa travessia dos fantasmas de sua essência.


Ana Maria Lima

Jornalista, fotógrafa, pós-graduada em comunicação e atualmente estudante de psicanálise.
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