por entre letras

...discorre a cena, escorre a vida

Ana Maria Lima

Jornalista, fotógrafa, pós-graduada em comunicação e atualmente estudante de psicanálise

Kafka e potência de pensamento

De uma submissão automática a um protagonismo possível - Duas histórias em Kafka ilustram a atitude passiva do sujeito frente as repressões impostas ou imaginárias, e a filosofia nos coloca o insight que pode mudar essa posição.


Há dois momentos, dentro do romance ‘O Processo’ de Kafka, que ilustram uma situação bastante corriqueira. Momentos em que nos deparamos com a dúvida frente o desejo, a culpa e a Lei, seja ela constitucional, moral ou religiosa.

— Não te enganes — preveniu-o o sacerdote. — Em que haveria de enganar-me? — perguntou o sr. K. — Ao julgar a justiça, te enganas — disse o religioso — Nas palavras de introdução à lei existe uma história referente a esse engano: diante da lei está postado um guarda. Até ele se chega um homem do campo que lhe pede que o deixe entrar na lei. Mas o sentinela lhe diz que nesse momento não é permitido entrar. O homem reflete e depois pergunta se mais tarde lhe será permitido entrar. "É possível", diz o guarda, (...) "Se tanto te atrai entrar, procura fazê-lo não obstante a minha proibição. Mas guarda bem isto: eu sou poderoso e contudo não sou mais do que o guarda mais inferior; em cada uma das salas existem outros sentinelas, um mais poderoso do que o outro. Eu não posso suportar sequer o olhar do terceiro".

No diálogo acima Josef K., um cidadão acusado de um crime desconhecido, pede explicações ao o sacerdote do presídio sobre sua condenação. O eclesiástico lhe responde com uma anedota enigmática de um camponês fica até o fim de sua vida na porta da entrada da Lei, e somente depois de décadas de suplício ao guarda, ele pergunta porque ninguém tentou passar por aquela porta, o guarda lhe diz que estava reservada somente para ele, o camponês.

Trecho da primeira versão do filme baseado no Livro “O Processo”

— Quer dizer então que o guarda enganou o homem — disse K., imediatamente, pois tinha seguido a história profundamente interessado. — Não te apresses — retrucou o eclesiástico —; não aceites opiniões alheias sem exame. Contei-te a história conforme o texto original. Nenhum engano existe nele. — Contudo, existe aqui um engano — insistiu K. —, e tinhas inteira razão ao princípio quando me falaste dele. O guarda apenas comunica ao homem aquilo que poderia salvá-lo no momento em que já não pode servir-lhe. — Mas é porque antes o homem não lhe tinha feito essa pergunta — replicou o sacerdote —; pensa ainda que não era mais que um sentinela e que como tal cumpriu o seu dever.

A sagacidade de Kafka está em aludir, nesta metáfora, a dialética das forças internas do sujeito com as estruturas sociais, cujos personagens representantes da justiça atuam usufruindo seus micropoderes em nome de uma Lei, compondo um superego coletivo e irracional. Estes funcionários também não sabem da Lei, apenas se desimplicam, e fazem dela um grande Outro, misterioso e superpoderoso. Uma Lei que não se conhece, um crime que não se cometeu, e o sujeito fica ali a se rebelar e questionar, mas sem conseguir se desvencilhar efetivamente do embuste em foi colocado. Acaba sofregamente se arrastando a todas as labirínticas instâncias da justiça. Como se fosse herdeiro de um pecado original fica em dúvida, e assim não se permite separar-se desse lio. Kafka consegue instaurar aí um cenário onírico de pesadelo.

Além da Lei

A anedota contada pelo sacerdote do presídio dá um desfecho para o enigma, é ele o único personagem da estrutura que passa uma mensagem afora os mecânicos semblantes que nada dizem além de repetir regras e confundir o sujeito. A lei que o guardião da anedota proteje pode ser a Lei do Desejo, o pobre guardião nada sabe sobre a Lei, por isso só faz amedrontar. Ele não mentiu para o sujeito, apenas afirmou que haveriam mais portas, mais guardiões cada vez mais poderosos, mas não afirmou o que havia depois das portas, apenas que temia os guardiães. Ele é um medroso, só isso. Para não ficarmos apenas na ficção kafkaniana, basta lembrarmos de situações, principalmente frente a burocracia da máquina pública, cujos funcionários que por dúvida, ou indisposição só dizem não.

George Tooker Goverment Buareau.jpg George Tooker ficou famoso por ilustrar cenários claustrofóbicos da sociedade contemporânea. Government Bureau, 1956

Kafka nos deixa confusos entre realidade e fantasia, e se o que oprime são as forças internas ou as forças externas ao indivíduo. Faz pensar no conceito dentro–fora apresentado por Lacan, sendo dentro, tudo o que está sob a superfície da pele, e fora, todo o resto “(...) do que existe no exterior, afinal, vocês só sabem o que está na sua cabeça” - será sempre uma representação - a respeito do mundo, sempre poderei observar que isso vem do que vocês representam dele para si”. No mito da caverna de Platão que extraímos o primeiro conceito de dentro-fora, as pessoas dentro da caverna só conseguem pensar o mundo a partir das sombras projetadas na parede pela luz da entrada da caverna. O que se passa fora é refletido dentro, as leis da óptica atestam, através da câmara escura, que onde toda imagem em seu interior entra pelo furinho quando o fora está iluminado. O olho humano é o furinho pelo qual toda nossa representação imagética passa por ele. O mundo lá fora se passa aqui dentro, e as reflexões internas sobre o mundo são determinadas pela direção do nosso olhar.

MagritteRene-Evening_Falls-We@SnF-1-1w1aqxq.jpg Magritte tem obras onde inverte a lógica dentro e fora. Evening Falls, 1964

Um dos pensadores que se debruçou sobre a formação do pensamento foi Heidegger, ele dialoga sobre o lugar onde ocorre o que se passa no pensamento, se dentro ou fora, nas questões do ser e da presença “é o em mim que fornece solo para a comprovação do fora de mim”. E na dinâmica interna do sujeito a psicanálise busca desvendar os laços com o real. Lacan menciona que as representações externas ficam armazenadas no mesmo lugar que muitas outras coisas. “Visto que as representações não podem ser postas noutro lugar, nós as colocamos aí, e do mesmo modo, aí colocamos o resto todo, ou seja, aquilo que é chamado de maneiras diversas e confusas, de afetos, instintos, pulsões. Tudo isso esta do lado de dentro”.

False Mirror.jpg The false mirror, Magritte 1928

E é nessa dialética de dentro-fora que é gerado e gerido o sujeito, suas representações externas, suas verdades, sua concepção de mundo são afetadas inteiramente por seus recalques, medos e instintos, ele atua a partir desse conjunto. O Sr. K e do camponês da anedota não há esclarecimento suficiente sobre a Lei, e mesmo assim, há algo neles que os impede ir além.

E de onde poderia se originar o pensamento de libertar o sujeito de suas correntes imáginárias se acredita que deve se submeter a essa regulação do Outro? O filósofo Agamben nos dá uma luz ao dizer que é o pensamento de se autorizar que coloca o sujeito frente a ineludível experiência da potência. “Chega para todo homem o momento em que ele deve pronunciar este "eu posso!", que não se refere a uma certeza nem a uma capacidade específica, e que, no entanto, o compromete e o coloca inteiramente em jogo. Este "eu posso" além de qualquer faculdade e de qualquer savoir-faire, essa afirmação que não significa nada, coloca o sujeito imediatamente diante da experiência(…)” É o o ato colocar-se em jogo que falta ao Sr. K. e ao camponês da anedota, eles não se colocam em jogo com potência de pensamento. A ação deles é dirigida pelo “não pode”, que é diferente do “pode não”, expressão que Agamben coloca como potência de não, revés fundamental daquilo que é potente, “pode não” é a possibilidade de não ser, ou não conseguir, porém consciente do abismo de sua impotência. A expressão “Não pode dar certo” é negação e impotência, já o “pode não dar certo” remete a fazer e assumir os riscos.

A potência de pensamento que vai se inscrever nos atos, e os limites éticos que marcarão a posição do sujeito surgirão a partir do trabalho psíquico envolvido na análise de suas experiências e suas significações. Trata-se de uma colocação singular no mundo, guiada mais por seu desejo do que limitada por barreiras impostas ou imaginárias.

AGAMBEN, Giorgio, Potência de pensamento . Revista Dep. Psicol., UFF vol.18 no.1 Niterói Jan./June 2006 http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-80232006000100002&script=sci_arttext HEIDEGGER, M. Ser e tempo (1927), Partes I e II, tradução de Marcia Sá Cavalcante Schuback, Petrópolis: Vozes, 2002. LACAN, J. O seminário livro 11 – Os quatro conceitos fundamentais em psicanálise, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1985 KAFKA, Franz. O processo 1925


Ana Maria Lima

Jornalista, fotógrafa, pós-graduada em comunicação e atualmente estudante de psicanálise.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Ana Maria Lima