por entre letras

...discorre a cena, escorre a vida

Ana Maria Lima

Jornalista, fotógrafa, pós-graduada em comunicação e atualmente estudante de psicanálise

A liberdade é uma benção confusa

“Precisamos dela para sermos nós próprios; mas sermos nós próprios apenas pela força da nossa opção livre, significa uma vida cheia de dúvidas e receios de errar” (Bauman)


A liberdade é um valor desejável universal, mas apresenta um impasse – concorre com nosso desejo de comunidade e segurança. A sociedade horizontalizada com a queda da autoridade das figuras paternas, como a monarquia, igreja, escolas e da própria família, vive o que o que chamamos de declínio do nome do pai - a lei introjetada que faz dar sentido e ordem às coisas. Para ser livre é preciso suportar o vazio, nos dois sentidos: de aguentar e de dar suporte a esse espaço, e por conseguinte, assumir toda a responsabilidade que dele decorre.

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Muitas pessoas se angustiam diante de tantas possibilidades e da ausência das certezas, características desta era, e desenvolvem a demanda de alguém que exerça o papel de pai/líder/ideal para um ego que está cambaleante. É bastante comum que nesta situação, o indivíduo se submeta a esse Outro dominador, com suas ordens, desde que este, em troca, lhe dê um conjunto significante suficiente para que o funcionamento do mundo seja explicado, ou seja, uma ideologia de mundo.

A liberdade completa é impossível, o ser humano precisaria estar totalmente isento de laços sociais e aí estaria em completo abandono, e ficaria submetido a opressão da natureza, o que é uma avassaladora desvantagem para o humano Sendo a liberdade completa nunca alcançada por um humano que pudesse nos contar a experiência, a liberdade total passa a ser um conceito subjetivo. Podemos experimentar sensações de liberdade, o filósofo Bauman atribui a este tipo de liberdade, mais atenuada, o termo privacidade “o direito de recusar a intromissão de outras pessoas ou agentes, em momentos ou atividades específicas” (Bauman p.84)

foto 4.jpg Para alguns a sensação de liberdade pode advir de uma semana numa ilha deserta, abrir o próprio negócio, as férias escolares das crianças, a dissolução de um matrimônio ou sociedade, ou simplesmente pedalar em uma montanha.

A necessidade de comunhão com o outro é natural e estrutural, todos desejamos esta sociedade ideal que nos daria apoio e segurança, embora não queremos nos submeter aos encargos decorrentes do funcionamento desta sociedade, tampouco das coações que nos seriam impostas pela maioria. Bauman evoca a expressão ‘sonho de comunidade’ para nomear esta vontade humana. “Comunidades sonhadas deste tipo servem como soluções ilusórias para uma contradição que sempre se nos depara e que nunca é conclusivamente solucionada na vida diária”.

Uma das coisas interessantes nas recentes eleições presidenciais, foi o interesse em massa pelas questões políticas, uma boa parte, animados certamente pelo pertencimento de um grupo com um inimigo comum. Naturalmente os extremos apareceram nas defesas e acusações emocionadas de um e de outro candidato, o que é natural.

Mas se evidenciou também uma certa angústia diante da democracia, e o desejo de totalitarismo de ambas as partes, que eu ousaria comparar com a angústia da liberdade diante do modelo de comunidade que aí está colocada. Certos discursos e atos próximo as eleições e depois exalaram um aroma de desejo de mais autoritarismo, seja ele inspirado no modelo soviético ou um regime militar como o Brasil tragicamente já vivenciou.

"Tanto movimentos revolucionários quanto contra-revolucionários, mesmo não tendo em comum um projeto global de transformação radical da sociedade, têm em comum a convicção de que em última instância, precisamente pela radicalidade do projeto de transformação, este não pode ser realizado senão pela instauração de regimes autoritários." (Bobbio, p. 118)

Nossa democracia é o que de melhor nos temos hoje, ainda que seja infantil, e que - como toda criança; fantasia muito, caminha com dificuldade, e foge das responsabilidades. Ficamos perplexos diante do caos da informação, e das vicissitudes do jogo político extremamente ambíguo, no nosso país. Os brasileiros precisarão amadurecer a participação política, sob pena de ter que se submeter primeiramente ao que está posto, que é ruim; e futuramente, eu não diria uma ditadura, mas a um personalismo político, um certo heroísmo oriundo de uma pessoa ou um grupo, que lembra mais um personagem salvador da pátria, literalmente. Para Bauman “Um candidato ditador que prometesse às pessoas perplexas uma forte dose de leis, ordem e certezas, teria boas probabilidades de ser largamente ouvido e avidamente aceite”.

ditadores 2.jpg Norberto Bobbio, filósofo político, afirma que as ditaduras em geral se apresentam como expressão legítima dos interesses e das necessidades do povo.

"Partem também deste princípio todos os artifícios que as Ditaduras adotam para mostrar que detêm a anuência do povo: desde os plebiscitos às grandes reuniões de massa em contato direto com o chefe e com seus representantes, até chegar à imposição capilar e coercitiva da aceitação entusiástica do regime por toda a população. Assistimos então a uma espécie de democracia subvertida, onde o povo é forçado a manifestar uma completa adesão à orientação política do ditador, a fim de que este possa proclamar que sua ação apóia-se na vontade popular." (BOBBIO, p. 374)

As concepções de mundo nunca foram tão evidentes e paradoxais, os posicionamentos; desde como cada se vê diante das questões polêmicas em sociedade até como cada um tolera as contradições na postura dos nossos governantes. A sensação de ambiguidade e incerteza não é privilégio de poucos. Nossa inserção na civilização nos leva a isso. O capitalismo em sua fase de consumo, oferece espaço para a liberdade humana maior do que o de qualquer sociedade conhecida, passada ou presente, e ao mesmo tempo apresenta grandes contradições sobretudo a exclusão e a diferença de oportunidades.

Muitos observadores afirmam com boas razões que o capitalismo especialmente na fase de consumo, abriu para as pessoas a possibilidade de exercerem seu talento, vontade e julgamento numa medida até então desconhecida(...) Outros realçam com razões igualmente boas, o aumento do controle social sobre a vida individual (...) na verdade, uma nova versão do ‘taylorismo social’, desta vez dirigido ao comportamento do consumidor. (Bauman, p.89)

O sistema capitalista não vende dinheiro, bens ou propriedades, vende símbolos, status, formas de individualização tão almejadas. Os produtos são vendidos ligados a personagens que inspiram características que gostaríamos de ter. É na busca pelo SER que a todo momento buscamos TER algumas coisas, na ilusão de nos fazem existir e pertencer. De acordo com Bauman, virtualmente, para cada ‘ego’ projetado, há símbolos compráveis para o exprimir, “Se por agora eles faltam, podemos ter certeza que a lógica do mercado orientada para o lucro, há de fornecê-los em breve”. Então além de fornecer o os símbolos da individualização - porque há escolhas infinitas - ao mesmo tempo, o consumo de determinado produto ou marca dá a sensação de pertencimento a um grupo, a segurança que mais pessoas o aprovam e o consomem. Neste caso na engrenagem do capitalismo obtemos a liberdade e individualidade almejadas. E mais, o capitalismo através do consumo atende outra demanda do indivíduo contemporâneo - a insatisfação crônica, cujo funcionamento consiste em preencher o vazio estrutural, aquela sensação de incompletude do sujeito, com objetos, milhares de objetos.

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Mas a solução para coisificação das pessoas causadas pelo capitalismo avançado, ou o desenvolvimento de uma sociedade mais humana e sustentável, não deve estar na via de um governo mais autoritário. Sacrificar a tão almejada liberdade e democracia porque eles, os governantes, que escolhemos administram mal, não vale. Esse chamado pelo pai autoritário, que coloca a ordem na casa, que resolve o país sem termos que nos implicar no jogo democrático e assumirmos nossas responsabilidades, cria um cenário propício as ideias totalitaristas de concepção de mundo. Bobbio coloca exemplos da dificuldade de se estabelecer regras sociais que não interfiram nas liberdades privadas, e essa é a corda bamba na qual os governos e legisladores estão e viverão constantemente.

“Não precisamos retomar a grande contradição histórica atual entre comunismo e capitalismo, pois são infinitas as possibilidades de serem apresentados casos diminutos ou mínimos de medidas igualitárias que limitam a liberdade, e vice-versa, de medidas libertárias que aumentam a desigualdade.” (Bobbio p. 113)

A perda de liberdade afeta a todos, ainda que Bobbio, enfatize que a perda de liberdade atinge mais os ricos do que os pobres, pois estes já tem a liberdade limitada pelas condições econômicas privadas - o rico perderia liberdade efetiva e o pobre perderia liberdade em potencial.

Pensar uma concepção de mundo é filosofar. Cada um tem a concepção a partir do que lhe foi transmitido e experimentado - e a partir dela, se articula. Existem infinitas concepções de mundo. É a era da equivocidade da linguagem, somos sabedores da incerteza não há mais como voltar a era das certezas absolutas. Para Lacan, fora do discurso filosófico nada é menos garantido do que uma concepção de mundo.

“O marxismo não me parece poder passar por concepção de mundo. A isto é contrário, por toda sorte de coordenadas contundentes, o enunciado do que diz Marx. é outra coisa, que chamarei um evangelho. É a anunciação de que a história instaura uma outra dimensão de discurso, e abre a possibilidade de subverter completamente a função do discurso como tal e, falando propriamente, do discurso filosófico, na medida em que sobre ele repousa uma concepção de mundo.” (Lacan, p.36)

Lacan cita o marxismo apenas como exemplo, para diferenciar uma ideologia de uma concepção de mundo, esta ele prefere atribuir ao campo filosófico. A psicanálise, Lacan também deixa fora disso, atua no campo da relação do indivíduo naquilo com que ele mesmo se prende. A psicanálise é capaz de efetuar transformações em um corpo a partir de um novo funcionamento significante, mas de forma alguma se propõe a uma concepção de mundo. Nela cada realidade se funda e se define por um discurso. Sendo a liberdade um conceito subjetivo, fundado por um discurso, cada um vai experimentar da sua forma, e uma vez liberto das prisões imaginárias, já não se submete, ou ao menos, não sem saber aonde isto pode levar.

BAUMAN, Zigmund. A sociedade individualizada : vidas contadas, histórias. Tradução: Jorge Gradel - Rio de Janeiro : Jorge Zahar, 2008

BOBBIO, Norberto. Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política. Tradução Marco Aurélio Nogueira - São Paulo : Editora da Universidade Estadual Paulista,1995

BOBBIO, Norberto; MATTEUCI, Nicolla; PASQUINO, Gianfranco . Dicionário de política. Tradução: João Ferreira - Brasília : Editora da Universidade de Brasília,1997

LACAN, Jacques. O seminário 20 : Mais, ainda. Rio de Janeiro: Zahar 2008.


Ana Maria Lima

Jornalista, fotógrafa, pós-graduada em comunicação e atualmente estudante de psicanálise.
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