por entre letras

...discorre a cena, escorre a vida

Ana Maria Lima

Jornalista, fotógrafa, pós-graduada em comunicação e atualmente estudante de psicanálise

Fanta com frontal

O filme Boa Sorte, é um drama devastador sobre amor, HIV, drogas, e descaminhos, num mundo onde as pessoas não querem mais se tocar, e os pensamentos diferentes não são bem aceitos, a medicação e a drogadição se apresentam como válvula para promover o contato, ou para aplacar o que não "cessa" no pensamento. Mas é particularmente rica a abordagem sobre o desencadeamento da “loucura” dos personagens e a resposta psiquiátrica que recebem da cultura – remédios e internação.


É muito consistente nos diálogos entre, Judith e João os pequenos delírios sobre si, sobre o corpo e o mundo, que são naturais em todos nós -“o que estraga é a mente que não para de funcionar” diz ela - são pensamentos que revelam a incapacidade de apreender o Real que não para de se escrever. As falas de Judith apontam para o desacordo entre a mente e o corpo, um encontro com o Outro eu devastador e seus imperativos de gozo mortífero, que a fizeram tomar outros destinos, que não aqueles que ela tinha como sublimatórios, no caso das artes e da yoga, Judith se lançou a drogadição para buscar essa Outra dimensão para seus pensamentos. João é um adolescente com o corpo e mente em efervescentes transformações, vivendo em uma família usuária do ansiolítico frontal, e passa ele a tomar compulsivamente o remédio, inicialmente por curiosidade e depois para aplacar seus sentimentos de inconformidade com o mundo, ele toma a medicação para se sentir invisível, para ele, as pessoas cada vez menos querem tocar o outro.

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Estes dois se encontram em uma clínica psiquiátrica, e ali se deparam com mecanismos que são qualquer coisa, menos os caminhos para o reestabelecimento do sujeito. Desde a postura fria da psiquiatra, até a medicação excessiva e o enclausuramento. Mas mesmo assim eles conseguem dar cor aos dias e se divertir. Os diálogos sobre suas percepções de mundo são muito ricas, os personagens parecem mesmo ter vivido aquilo, revelam com profundidade as fantasias que advem deste outro do inconsciente, e que eles dão seus nomes, montam seus jogos mentais, que apenas estão em inconformidade com o mundo “civilizado”. O filme é baseado no livro de Jorge Furtado “Frontal com Fanta” e não vou dar mais detalhes da aventura de João e Judith, só queria mesmo provocar quem gosta do assunto para assistir o filme.


Ana Maria Lima

Jornalista, fotógrafa, pós-graduada em comunicação e atualmente estudante de psicanálise.
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