por entre letras

...discorre a cena, escorre a vida

Ana Maria Lima

Jornalista, fotógrafa, pós-graduada em comunicação e atualmente estudante de psicanálise

A falha que sustenta o laço


“Para cada pé torto há um chinelo velho” é um ditado antigo que carrega uma significação para os casais que se arranjam marcados mais pelo lado de alguma imperfeição do que pelos imperativos do bem e do belo. Diferente é a expressão cara-metade ou metade da laranja, que diz mais sobre duas peças que se unem simetricamente. A psicanálise, nos assuntos do amor, aponta para desconstrução das identificações com os padrões concebidos e idealizados e apresenta a possibilidade de uma união pela via do desejo e não da tirania superegóica. Quando se usa a máscara da perfeição para se tornar desejável, idealiza-se demais o outro, paga-se muito caro para manter esta farsa, e não garante a sustentação do desejo.

Pode até haver a metade da laranja, ou cara metade mas ela é assimétrica, algo que não encaixa, e a atração ocorre mais pelo traços da falha, mais pelo sintoma singular de cada um desenvolveu, do que a lista de virtudes que exibe.

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Como ilustra Arnaldo Jabor “Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta.”

“(...)Poder-se-ia pensar que o parceiro é sintoma quando ele não é bom. Pois bem essa construção implica o contrário. O parceiro sintomatificado é o melhor, aquele com o qual estamos o mais perto possível da relação. Assim na experiência analítica, quando um sujeito testemunha que tem um parceiro insuportável, do qual se queixa, o be-a-bá é de dizer lhe que não é por acaso que se juntou a ele(...) São casos como este que chamarei de união sintomática , e que tocam mais de perto a existência da relação sexual.” Jacques Alain Miller - Circuitos do desejo na vida e na análise


Ana Maria Lima

Jornalista, fotógrafa, pós-graduada em comunicação e atualmente estudante de psicanálise.
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