por entre letras

...discorre a cena, escorre a vida

Ana Maria Lima

Jornalista, fotógrafa, pós-graduada em comunicação e atualmente estudante de psicanálise

A imagem própria e suas (im)possibilidades

Tudo se dá no corpo, as compulsões, retrações, movimentos, reações. Usamos nosso corpo para satisfazer nossas vontades de prazer e de dor. Há os que desistiram do corpo, há os que o exibem e há os que se fixam demais na imagem dele


O corpo é o aparelho na qual o Eu se expressa, satifaz, enfim existe. E ele reflete a constituição psíquica, o corpo fala e recebe os estímulos do mundo exterior. E entre a imagem do corpo real e a que está constituída em nossa mente há uma diferença. Há uma lente, quando se trata de enxergarmos a própria imagem. A relação com a própria imagem tem sua matriz nos primeiros meses da criança, ainda mergulhada na impotência motora e ainda antes que a linguagem lhe restitua sua condição de sujeito. A criança ainda não sabe que tem um corpo, que é separado da mãe, e os primeiros registros do corpo próprio surgem disformes despedaçados, o bebê cria diversas fantasias para dar conta desta realidade que ele ainda não tem meios de apreender. Estas fantasias sobre a constituição do Eu vão construindo a complexa trama que dará as marcas da sexualidade do sujeito.

“ A permanência mental do Eu ao mesmo tempo prefigura sua destinação alienante; é também prenhe das correspondências que unem o Eu a estátua que o homem se projeta e aos fantasmas que o dominam, ao autômato , numa relação ambígua, no qual tende a se consumar o mundo de sua fabricação” (Lacan, o estádio do espelho)

bebe-brincar-reflexo-espelho1 (1).jpg O bêbe experimenta a imagem no espelhomas ainda não entende o que é o corpo, o que é o outro, o sujeito não está constituído

A imagem na instância do Eu, vai ter o irredutível traço de ficção singular para cada um, com diferentes efeitos no corpo. A relação com o próprio corpo é um enigma para o sujeito, por mais que a ciência esmiude célula a célula nada se pode dizer, em absoluto, do sujeito encarnado neste corpo. Da forma como este corpo se comunica com o mundo. Da forma como este corpo foi marcado pela experiência. Da forma como os sintomas são cifrados. Não há significante que dê conta disso, essa é a beleza e o mistério humano. A relação com a própria imagem, sempre marcada pela fantasia, desde o que se faz ou se coloca no corpo, os anéis de pescoço, as tatuagens, vestimentas, anáguas, medalhas de honra... a humanidade sempre criou e recriou, na imagem que o corpo carrega, suas marcas de cultura, de poder e de sedução. A medicina e a tecnologia evoluíram dando novas possibilidades ao corpo, e novas relações com a imagem. É possível transformar completamente um corpo, ao mesmo tempo que a imagem tornou-se onipresente. Já não se trata mais das capas de revista que as pessoas tinham que ir na banca comprar, agora as pessoas podem ter na mão o tempo inteiro os dispositivos com rede social seguindo milhares de celebridades, “It girls” e musas fitness com padrões de beleza inalcançáveis. Desleixar-se do corpo é ruim, mas fixar-se demais na imagem dele não é bom. Quando o sujeito não se reconcilia com a sua própria imagem pode estar acometido de uma patologia chamada pela psiquiatria como dismorfofobia.

Captura de Tela 2015-07-02 às 14.37.04.png A modelo da foto era seguida e tinha a magreza apoiada por milhares de fãs nas redes sociais até que morreu aos 21 anos de uma doença ligada a anorexia

Muitos dos sintomas contemporâneos se devem a essa nova relação com a tela, não falo dos efeitos da TV que tomou conta dos lares transformando toda uma geração, trata-se agora da tela do smartphone onipresente. Dependência, depressão, dismorfia, fobia, paranoia, anorexia. Com a queda dos referenciais paternos e das antigas instituições, somado ao excesso de tela na infância, os novos padrões identificatórios se dão pelo que chega através das telas. Os grupos que inter-relacionam e se influenciam, e há a mão das tendências tecnológicas, científicas e comportamentais inserindo novidades, freneticamente. Um estudo recente mostra que as pessoas entre 16 e 25 anos dedicam 16 minutos e sete tentativas em média para fazer o "selfie perfeito".

kim_kardashian_tratamento_sangue_620.jpg Kim Kadarshian é um ícone dos tratamentos obsessivos de beleza e da superexposição nas redes sociais

A obsessão pela imagem tornou-se um nicho de mercado. Todos queremos ser bonitos, desejados e amados, mas como não há simetria entre a imagem do Eu e o corpo, temos aí um lapso recheado de fantasias nessa constituição. E os signos de valor para ser uma pessoa desejável mudam de acordo com a cultura e época. O Brasil é um dos países que lidera as estatísticas de cirurgia plástica no mundo todo.

aus-01.jpg A moda dos anabolizantes parece que não colou na Austrália

Recentemente observei pessoas em uma praia na Austrália, e lembrei de algumas praias no Brasil há 10 ou 15 anos atrás quando ainda não havia a epidemia de práticas excessivas nos treinos das academias, dietas radicais, anabolizantes e intervenções cirúrgicas. Os corpos eram moldados pelo surf, volei de praia, corridas e pedaladas. Com exceção dos fisiculturistas, atletas e profissionais das academias, é notável que muitos brasileiros se excedem, homens com braços gigantes, mulheres com peitos e bundas muito grandes, muitos destes colocando a saúde em risco em nome deste padrão. Além dos riscos este padrão perde esteticamente para as pessoas que buscam uma beleza mais natural através de métodos mais brandos, respeitado a beleza singular de cada um.

andressa_urach_insta_893.jpg A modelo Alessandra Urach colocou a vida em risco por conta das próteses

A ilusão de que não há falta, não há castração e tudo é possível, você pode ter o corpo que quiser, o sexo que quiser, fazer previsões de tudo, é uma idéia que seduz e vende porque temos o desamparo estrutural, mas no real da vida sempre vai haver o furo, o desencaixe, algo sai diferente das nossas certezas. E a mágica da vida continuará sendo a do encontro, da supresa, das conexões de algum traço de fragilidade no outro. O olho no olho ainda continuará sendo a melhor forma de ser tocado pelo outro, de se conectar, de se estabelecer laços, de trocar compreensões, sem mediações e sem a moldura de uma imagem ofertada, mas simplesmente capturada.


Ana Maria Lima

Jornalista, fotógrafa, pós-graduada em comunicação e atualmente estudante de psicanálise.
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