por entre letras

...discorre a cena, escorre a vida

Ana Maria Lima

Jornalista, fotógrafa, pós-graduada em comunicação e atualmente estudante de psicanálise

A magia insubstituível da presença

Somos outra coisa, feita de verdade e mistério, consciente e inconsciente, corpo e alma. A falsa ilusão criada pela imagem virtual em substituição à presença tem tirado as pessoas do corpo a corpo.


foto 4.jpg A velocidade dos chats, a qualidade das fotos, o dinamismo da informação revolucionou os relacionamentos

O fenômeno da virtualidade tem causado mudanças radicais no contato entre as pessoas. Em um passado bem recente, as pessoas escreviam expressivas cartas a punho, as respostas eram esperadas semanas depois. Viajava-se horas de carro, trem ou navio, para visitar alguém querido. O tempo e a distância tinham outra consistência. A ciência e a tecnologia jamais irão substituir ou intermediar, o fenômeno da presença, do olhar, toque de mãos, abraço, expressões vocais frente a frente ou uma gargalhada entre amigos. Esta troca química, física, libidinal, espiritual, energética, transcendental ou ainda muitas outras coisas envolvidas, é um jogo sem garantias. Diferentemente das redes sociais onde se trata a foto e se edita o texto, você está nu, vê e é visto, causou e é causado nesta troca. No aqui e agora, é a imediatez da ação e reação, que revela os traços sociais e emocionais de cada um. Neste campo não há regra geral, existem manuais de etiqueta e cortesia, mas não há nada como um equívoco ou falha, entre dois amigos íntimos que cause maior conexão.

foto 5.jpg A comodidade e os filtros de exposição das redes sociais faz com que algumas pessoas se encontrem menos pessoalmente

Expôr-se pessoalmente não é fácil, porque se tem pouco controle sobre o processo e sobre os efeitos da comunicação, mas não o temos desde que nascemos, não somos uma máquina. Somos outra coisa, feita de verdade e mistério, consciente e inconsciente, corpo e alma. A falsa ilusão criada pela imagem virtual em substituição a presença, tem tirado as pessoas do corpo a corpo. A presença não é algo fácil, seja ele entre amigos, familiares, ambiente de trabalho ou eventos sociais, sempre estamos vulneráveis a comentários, percepções, julgamentos e críticas, e o mundo pode parecer bem hostil em determinados momentos. Experiências desprazerosas neste campo em qualquer período da vida pode fazer com que muitas pessoas prefiram a reclusão, tenham traços de fobia social, certa timidez. Mas a cada escolha; reclusão, vida social, ou vida virtual, há um preço ao qual não se escapa - a dor de existir - que está para todos, e não há uma receita para evitá-la, apenas um saber-fazer particular que cada um tem quando ela bate à porta.

foto 8.gif A presença nem sempre é fácil, não é apenas física, estamos ali com nosso corpo, nossa história e nossos sentimentos. O mundo virtual nos permite o contato, mas não a presença.

O fim de ano é sempre uma data em que se depara com o corpo a corpo, de uma forma implacável. Entre familiares e amigos as vezes se permite certa intimidade que viabiliza um fluxo de comentários, de um nível mais pulsional e especular, desprovido de cortesia, porque na intimidade somos assim. Mal sabemos que julgamentos e críticas quase sempre tem a ver com os traços incômodos em si, vistos porém, no outro, como um espelho. Ou então há algo no outro que invejamos e nos permitimos comentar coisas que tirem esta grandiosidade toda dele, e por aí vaí toda sorte de jogos subjetivos, que aparecem mais no corpo a corpo.

foto 3.jpg Os smartphones se tornaram uma fuga do espaço familiar

É importante pensar, quando vamos ter esses encontros, que todos estamos indo com nossa mochila de afetos, expectativas, dores, frustrações, perdas, mal-entendidos, fraquezas, desejos de reconhecimento, e sobretudo a mais humana das características: o erro. Que cada um tem as suas verdades, e é muito chato quando alguém tenta impor a sua. Seja qual for a sua religião ou orientação política, é mais importante ter amigos do que converter alguém. Seja qual for a sua classe social, leve os mais valiosos dos presentes, o seu sorriso e a sua amizade. Seja qual for o problema que o outro tenha criado, leve uma palavra de força e não de condenação. Indulgência sobretudo com os próprios erros, e naturalmente se adquire com os dos outros. Desejo a todos um bom fim de ano, e que 2016 as pessoas se encontrem mais, percam o medo ou o comodismo que evitam o corpo a corpo, e que as ferramentas virtuais sejam facilitadoras dos encontros reais, e não substituidoras.


Ana Maria Lima

Jornalista, fotógrafa, pós-graduada em comunicação e atualmente estudante de psicanálise.
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