por sob a pele

Verdades frágeis, mentiras inabaláveis... Pele sob pele, até o âmago de si mesma.

Natalia Sales Cavalcante

Escritora por determinação e não por formação. O que eu busco são as possibilidades escondidas por trás do verbum, significados que possam levar a mundos inexplorados.

Silêncio, shhh...

A televisão tem te feito companhia nos últimos tempos? Então... Meus pêsames: você está morto, e não sabia. Até agora, claro.


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"A televisão me faz companhia", argumentou certa vez, em tom de confissão, quando me irritei com ela por muitas vezes manter a sua "companheira" ligada mesmo quando não está assistindo à programação. A confissão me causou certo espanto considerando que por companhia, eu pensaria naturalmente em um ser humano, carne osso e intelecto, e não em representações do ser humano e do mundo em geral através de pixels. E, bem... Eu estava logo ali.

De qualquer forma, isso não me afetou tanto quanto a confusão áudio-visual que não me deixava raciocinar; Eu precisava escrever, digitar A mais B no editor de texto do computador, e por um tempo até tentei ignorar o barulho e as imagens, testando a minha fenomenal capacidade de paciência e concentração para além de qualquer intrusão do mundo exterior, de modo que eu escutasse só a mim - uma espécie de meditação, ou quase isso. Mas é claro que eu falhei no teste.

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E como resultado dessa equação de sons, imagens e escrita, a linha de raciocínio que eu havia me apegado como o cabo da boa esperança, se partiu em milhares de pedacinhos que ainda devem estar vagando perdidos em algum ponto do espaço sideral; então a partir daí, eu passei a reconsiderar seriamente as minhas possibilidades... E acabei em frente à tv.

Mas no dia seguinte, pensando melhor no que ela havia me dito, acabei chegando à compreensão do que ela me disse; Nós queríamos exatamente a mesma coisa, mas até então eu não havia considerado a possibilidade de outro silêncio que não fosse o mais óbvio, o da ausência de som, em contrapartida ao silêncio provindo de dentro, que também se pretende como a ausência do som, mas nesse caso, são os sons ou as vozes do pensamento, da memória, da consciência. Se é que é possível silenciar as vozes da mente.

Ou seja, minha companheira de apartamento e eu estávamos em movimentos internos contrários; ela querendo silenciar a sua voz interna, e eu querendo escutar a minha própria.

Mas o dela pertence a uma categoria mais sofisticada de silêncio, que leva em conta toda uma gama de elementos sócio-culturais, econômicos e de desenvolvimento tecnológico para ser compreendido; não é facilmente detectável por ser dissimulado, abafado pela audição e pelo forte apelo da imagem. Não que esse tipo de silêncio, que deseja privar a voz da própria consciência, seja recente, mas acredito que ele tenha se tornado de certo modo, crônico, ou assustadoramente recorrente, especialmente da última década do século XX em diante. Uma espécie de síndrome pós-moderna, ou algo do gênero.

Já o meu é mais óbvio, velho conhecido da humanidade, de fácil execução e entendimento, embora mais difícil de se obter num mundo cada vez mais ruidoso e visual...

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O que me leva a crer que, provavelmente, calar a si próprio é a maneira de escape, ou de defesa, mais covarde que um indivíduo pode empreender e, no entanto, nem essa, nem a outra, são formas condenáveis de silêncio. Afinal somos todos culpados! Quantas milhares de vezes em nossas vidas quisemos escapar de nós mesmos, por diversos motivos, e fizemos isso de todas as maneiras possíveis; quantos de nós já não chegamos em casa do trabalho ou de qualquer outro lugar, e antes mesmo de tirar os sapatos, ligamos a televisão em um canal qualquer para sentir que há alguém na sala, que não fomos abandonados, esquecidos, ou simplesmente para esquecer, possivelmente de si mesmo...

Então talvez você diga que não é nada disso, que a televisão tem o seu valor e é um meio prático e eficiente de se manter informado, ou de entreter, enquanto nos possibilita realizar as tarefas domésticas ou mesmo trabalhar no computador enquanto a programação rola solta, quase como plano de fundo para as nossas inseguranças. Bom, talvez você não diga essas últimas palavras... De qualquer maneira... Sim, eu disse inseguranças, mas não se sinta mal; ser inseguro é um dos pecados capitais mais execrados pela sociedade vigente, mas é aquela fraqueza que todo mundo sofre, mas calado, com vergonha de ser descoberto. É a hipocrisia máxima da era do sucesso fugaz e a qualquer preço, doa a quem doer.

Mas, por favor, não me entenda mal; admito que a televisão tem o seu valor, e que já nos proporcionou acesso a importantes descobertas e momentos vividos ao redor do mundo e até fora dele (naquele mesmo espaco sideral), que, de outra forma, provavelmente não teríamos conhecimento. Mas esse é assunto para outro artigo.

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Então, voltando à síndrome. A da hiperconectividade, embora eu prefira "síndrome dos seres autômatos" ou "síndrome da automatização humana", considerando que a nossa capacidade de reflexão está sendo cada vez mais suplantada pelos mecanismos que condicionam a nossa mente a determinado modo de ser e estar no mundo, como marionetes, por exemplo. Em outras palavras, aqueles seres que não agem por conta própria, e sim por manipulação alheia.

Mas espera. Eu disse mal? E síndrome? Bem... Não sei ao certo se há um vilão nessa estória, mas sei que não só a televisão, como as redes sociais, entre outros, e a lista é longa, agem em certa instância como protagonistas de, esse sim, um mal do mundo (pós?) moderno: o temor de si mesmo, o pânico da perspectiva do silêncio sem escapatória, seja ele compartilhado ou não. Aquele em que tentamos preencher com ruídos, disfarçar com alguma distração qualquer, por medo, e quando em público, por vergonha desse silêncio capaz de emudecer, angustiar, constranger, e que mal sabemos como lidar, não com o silêncio em si, mas consigo mesmos - como garotinhos inseguros e desengonçados que não sabem o que fazer com as mãos, com os pés, com a cabeça... consigo mesmo. E dependendo da circunstância, também com os outros.

Numa época em que todos podem publicar seus pensamentos, e os dos outros, em redes sociais, sem o menor pudor e critério, a reflexão que provém do silêncio, perdeu chão para o pensamento condicionado e atolado de informações descartáveis, e à fugacidade do ato de escrever. As palavras, agora, são os próprios fins, e não um meio para se chegar ao sentido. Se diz muito do mesmo, sem necessariamente pensar no que se diz. Como papagaios em série. E o que se diz e escreve é mera forma de se manter vivo na rede, lembrado. O sentido pouco importa, a informação é aceita por si só, onde o fio da meada não se encontra mais, já se perdeu de vista. A sensação é a prioridade, é esperada como uma injeção de adrenalina. Vide o tamanho das notícias.

E todos têm opinião, para tudo. Especialmente quando é o assunto do momento. Porque em tempos de alta tecnologia, informação, relacionamentos, todos descartáveis, estar desconectado do mundo, "o virtual", estar em silêncio, sem distrações, é para nós quase uma espécie de morte.

Não estamos mais acostumados ao tédio da espera, à lentidão de certos processos do mundo concreto, não temos tanta paciência para projetos a longo prazo. Isso tudo é motivo de angústia; e a solidão, que é parte integrante do silêncio, que por sua vez é o berço da criação, é para os deprimidos, os rejeitados, os fracassados, para os que estão à margem... E quando esse silêncio de introspecção é procurado, não dura.

Então...

Nada aconteceu? Nada a declarar? Nenhuma novidade? Nenhum resultado? Uma opinião, talvez? Não? Caro leitor, então saiba que você está morto, e que é o último saber. Mas como morto-vivo, talvez você não se importe em deixar eu concluir esse artigo longo demais, afinal tempo não é mais um problema pra você, certo?

Portanto, no fim das contas, eu consegui o silêncio que queria, não por completo, não sem interrupções. O silêncio absoluto não existe, nunca existiu, mesmo no tempo em que era a chama tremulante de uma vela que iluminava as nossas leituras, e onde as transmissões eletromagnéticas pertenciam a um futuro distante, ainda a ser descoberto.

Mas em meio a essa abstinência de silêncio, é possível que você esteja se sentindo tão perdido quanto João e Maria nos limites da floresta, cercado de informações por todos os lados e de origem pouco confiáveis, nessa nossa realidade tecno-pseudo-futurística.

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Então, talvez seja preciso olhar para trás e seguir as migalhas, não as de pão, mas as da História, voltando pelo caminho percorrido para recordar de onde viemos, de modo que se possa projetar com mais clareza para onde pretendemos ir, dessa vez, tomando as devidas precauções, claro. E quando escurecer em algum ponto remoto e solitário desse passado revisitado, acender um lampião visto que não há mais lâmpadas elétricas, de modo a enxergar o caminho de volta pra casa, e quem sabe ter um vislumbre de nós mesmos, seres humanos que já dependeram completamente, num futuro agora absurdamente distante, da energia elétrica, das nuvens, as de água, mas também a virtual, que não passa de metáfora, mas que nos "conecta" a tudo e a todos. É no que acreditamos, ou melhor, no que acreditávamos, no antes avançado, sonoro e furioso mundo pós-moderno...


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