por trás do espelho

reflexões involuntárias

Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta.

Alguém toca violino no metrô


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“Não penso em nada nesse momento, apenas em ir e não sei à que horas, voltar. Faço tudo como se tivesse ligado um “piloto automático” aqui dentro, tudo passa por mim e nada vejo, ou melhor, não enchergo. Tenho pressa, urgência. Não tenho sonhos, tenho metas a cumprir. Não faço amigos, faço contatos. Não posso me desviar do meu objetivo, desperdiçar oportunidades. Se você atravessar o meu caminho, sinto muito mas terei que passar por cima. Preciso de resultados imediatos tanto quanto de relacionamentos imediatos que me sejam úteis. Há muito tempo não enchergo as cores da cidade, acho que ela é assim mesma, sempre cinzenta e empoeirada. Não sei diferenciar odores mais sutis, não sei tocar alguém a não ser daquele jeito formal. Meu corpo todo obedece à comandos condicionados e meu cérebro foi todo tomado pelo lado esquerdo. Tudo precisa ser rápido: andar, comer, fazer amor...

Não sei mais ouvir uma música e sinto um gosto insosso na boca, acho que meus cinco sentidos se atrofiaram. Já vi no metrô painéis com poesia, mas nunca parei para ler, não tenho tempo à perder com poesia. Virei uma carcaça que anda e respira. De repente ouço um som estranho diferente daqueles que estou acostumado, parece o som das cordas de um violino...alguém está tocando um violino. Mas não importa, não posso me desviar do meu foco, meu tempo está se esgotando...” Sempre acho bela essa cena: alguém tocando um instrumento musical dentro de uma estação de metrô. São artistas anônimos, não sei dizer se são bons ou não, mas também não tem importância, o que interessa é o sentido e a beleza dessa imagem fora de contexto, como se ali tivesse sido colocada para se sobrepor à paisagem. Mas essa cena não chama a atenção de quase ninguém. Interessante que isso aconteceu até mesmo com um famoso violinista.

O violinista americano Joshua Bell mostrou que, apesar de tocar de forma magistral as mais belas composições clássicas, os usuários do metrô de Washington, a capital americana, são insensíveis ao seu virtuosismo. Em experimento descrito num artigo publicado no jornal The Washington Post convidou Bell, um dos melhores violinistas do mundo, para tocar no metrô da cidade, com o intuito de constatar a reação do povo à música do instrumentista.

Às 7h51 (hora local) do dia 12 de janeiro de 2007, na estação L'Enfant Plaza, centro da capital federal, o artista e ex-menino prodígio começou seu recital de seis melodias de diversos compositores clássicos diante de dezenas de pessoas que só pensavam em chegar a tempo ao trabalho.

A idéia do jornal era descobrir se a beleza seria capaz de chamar a atenção num contexto banal e num momento inadequado. Bell, vestido de calça jeans, camisa de manga comprida e boné, tocou seu Stradivarius de 1713, avaliado em US$ 3,5 milhões, para 1.097 pessoas que passaram a poucos metros de distância durante sua apresentação. images (3).jpg

Ao longo dos 43 minutos em que tocou, o violinista arrecadou US$ 32,17 - posteriormente doados para instituições beneficentes -, valor bem abaixo dos US$ 100 que os amantes de sua música pagaram três dias antes por assentos razoáveis (não os melhores) no Boston Symphony Hall, que na ocasião teve lotação esgotada.

Na estação L'Enfant Plaza, fora dos grandes palcos e tendo como única companhia seu violino, Bell só foi reconhecido por uma pessoa, e poucas a mais pararam para ouvi-lo por alguns instantes. O redator do Post Gene Weingarten, que teve a idéia do experimento, disse numa conversa com leitores do jornal que os cidadãos de Washington confirmaram a máxima de que "a beleza está nos olho de quem vê". E, aparentemente, nos ouvidos de quem ouve. Painel_de_azulejos_na_estação_de_metro_dos_Olivais2.jpg Painel de Azulejos na estação de Metrô dos Olivais


Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta..
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