por trás do espelho

reflexões involuntárias

Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta.

O Surrealismo Selvagem de Lautréamont

"o que observamos não é só que o que observamos, é também o que significa”.


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Lautréamont, um poeta para se saborear lentamente, degustando bem devagar. Primeiro devora-se sua poesia para, depois, ser por ela devorada. Sua imaginação delirante é de uma lucidez visionária.

Se toda poesia discorre sobre o Homem, em algum contexto ou no seu próprio, Lautréamont fala do avesso desse animal, que tornou-se presunçoso e vive perdido de si mesmo, enganando-se a si próprio. Sua poesia, ao mesmo tempo, original e fascinante, prima pela lógica do absurdo. Mas, dane-se só a lógica fundamental, só o concreto, só a razão, só o empírico; antes a dualidade das coisas.

Por sinal, lembrei de uma grande e saborosa questão da filosofia, ou seria da poesia? O Homem não nasceria bom nem mau como os animais ditos irracionais? Ou, já nasceria bom e mau? E qual dos dois seria mais latente? Ou, quem sabe, o Homem precise resgatar o arquétipo selvagem? O Homem se dissociou da Natureza, aquela que lhe serviu de berço no enorme infinito, mas a Natureza continua em suas entranhas e à ela ele voltará.

Isidore Lucien Ducasse, mais conhecido pelo pseudónimo literário de Conde de Lautréamont, nasceu em Montevidéu, a 4 de abril de 1846, e morreu em Paris, aos 24 anos, a 24 de novembro de 1870. É considerado um precursor do Surrealismo.

Como sobre sua vida não há muita informação, consta que várias versões diferentes já foram escritas sobre ela. Mas, sem dúvida, deixou uma grande obra: Les chants de Maldoror (Os Cantos de Maldoror). O primeiro canto sai anônimo em 1868. Esse mesmo canto seria publicado, novamente, em 1869, na Antologia "Parfum's de l'Âme", também sem identificação de autor. Em 23 de outubro de 1869 é anunciada a publicação de Cantos de Maldoror (I, II, III, IV, V e VI) pelo Conde de Lautréamont, mas os livros foram retirados da venda pelo editor; somente em 1874 o volume chegaria às livrarias.

Os Cantos de Maldoror (trecho) “Ó ser humano! Eis-te agora, nu como um verme, diante do meu gládio de diamante! Abandona teu método; passou o tempo de te fingires orgulhoso; lanço sobre ti minha oração, em atitude prosternada. Alguém observa os mínimos movimentos de tua vida criminosa; estás envolvido pelas malhas sutis da tua perspicácia encarniçada. Não confies nele quando vira as rédeas, pois te encara; não confies nele quando fecha os olhos, pois ainda te encara. É difícil supor que, por meio de artimanhas e maldades, tua temível resolução tenha sido ultrapassar o fruto de minha imaginação. Mesmo seus golpes mais fracos têm efeito. Com cuidado, é possível ensinar àqueles que fingem ignorá-lo que lobos e salteadores não se devoram mutuamente; talvez não seja hábito”.

Esta imagem de uma obra do escultor tcheco Richard Stipl, tirada do álbum The Macabre and the Beautiful Grotesque, ilustra bem Lautréamont e nos mostra que o que é belo nem sempre assim nos parece quando apenas olhamos, "o que observamos não é só que o que observamos, é também o que significa”.

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“Eu, como os cães, sinto a necessidade do infinito...Não posso, não posso satisfazer essa necessidade! Sou filho do homem e da mulher, ao que me dizem. Isso me espanta...acreditava ser mais! De resto, que me importa de onde venho? Se dependesse da minha vontade, teria preferido ser antes o filho da fêmea do tubarão, cuja fome é amiga das tempestades, e do tigre, cuja crueldade é reconhecida: eu não seria tão mau”. (Lautréamont, Os Cantos de Maldoror, oitava estrofe, Canto I), tradução de Claudio Willer.

Invocando Lautréamont com os Lobos O lobo que vive em mim corre pelos bosques e uiva para a lua no cio O lobo que vive em mim lambe a cria das palavras paridas à fórceps O lobo que vive em mim traz brasas no olhar que penetram minha escuridão O lobo que vive em mim busca a estrela Sirius – a do cão maior – a mais brilhante do céu O lobo que vive em mim descobre trilhas nas estepes para caçar sentimentos O lobo que vive em mim quer me libertar da presunção O lobo que vive em mim quer resgatar o ser selvagem


Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta..
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