por trás do espelho

reflexões involuntárias

Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta.

Quando Akira Kurosawa encontra Van Gogh

Porém, a lição da obra de Van Gogh não é - de forma alguma - a desistência da vida, pelo contrário, se a morte é certa, devemos contemplar e celebrar a vida justamente porque ela é finita, e nesse contexto maior, o que importava uma "orelha"?


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No filme "Sonhos", de Akira Kurosawa, a dimensão da obra de Van Gogh é uma das histórias. O cineasta encontra Van Gogh em sua obra através do personagem vivido por Martin Scorsese. O filme se baseia mais em imagens que no diálogo, e foi exibido entre os longas fora de competição no Festival de Cannes de 1990. No filme, um estudante de artes entra nos quadros do pintor para tentar seguir seus passos e acaba por tomar algumas lições, terminando por perdê-lo no meio dos trigais do quadro "Campo de Trigo com Corvos".

Este é um filme arrebatador, mas é para assistir com calma, prestando atenção nas sutilezas das imagens. Suas poucas frases dizem muito. A obra "Campo de Trigo' é considerada derradeira, logo depois ele morreria, segundo consta, cometendo suicídio.

Van Gogh foi considerado louco, pois todo mundo se lembra dele porque teria cortado sua própria orelha. Mas, pouco importa se era louco ou como ele morreu, afinal, sua loucura tinha implícita uma lucidez criativa que o sobrepunha. As cores e os traçados das suas pinturas fazem o olhar delirar, especialmente quando ele pintava a natureza, os campos e o céu.

Na obra Campo de Trigo com Corvos parece mesmo que ele flertava com a morte. Entre o amarelo dos trigais e o azul do céu; três caminhos, um sem saída e dois que levavam ao desconhecido, e a revoada de corvos, os mensageiros. A vida representada nas cores fortes e alegres dos trigais e do céu, o desconhecido e a morte nas cores mais escuras, e a fusão de Van Gogh nessa paisagem.

Porém, a lição da obra de Van Gogh não é - de forma alguma - a desistência da vida, pelo contrário, se a morte é certa, devemos contemplar e celebrar a vida justamente porque ela é finita, e nesse contexto maior, o que importava uma "orelha"?

A morte é assustadora, um assunto tabu principalmente no ocidente/ Queremos esquecer que começamos a morrer assim que nascemos. A finitude nos angustia e passamos a vida tentando nos eternizar, de alguma forma, através dos princípios da ciência, da religião ou da arte. Não é sem razão quando alguém disse que “a arte existe porque a vida não basta”. O eterno antagonismo entre Eros, o deus grego do amor que representa a vida, e Tanatos, o deus da morte, duas forças contraditórias buscando se conciliar.

Van Gogh mostra ao estudante de artes onde ele poderia encontrar inspiração.

A pintura deve ser uma poesia muda e a poesia uma pintura que fale. (Plutarco)


Eli Boscatto

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