por trás do espelho

reflexões involuntárias

Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta.

O tempo e nossa memória sensorial

O tempo é liso, escorregadio, nos escapa, nos foge. Quando vemos ele se foi. À medida que crescemos o passado vai se alongando. Alguém já percebeu como temos lembranças sensoriais?


Imagem_704_p.jpg Comemos alguma coisa e de repente lembramos que aquilo tem sabor de infância, sentimos um aroma e lembramos de um momento, de um lugar, de uma pessoa. E os cheiros da infância parecem os mais marcantes. Quando criança as maçãs eram mais perfumadas e hoje parece que elas quase não têm cheiro. Não posso imaginar o que teria acontecido, se meu olfato mudou ou se as maçãs já não são mais as mesmas. O Natal era cheio de aromas exóticos. O cheiro que exalava daquelas cestas de natal que vinham em um baú de vime cheia de guloseimas, e o ar rescendendo à árvore de pinheiro. Cheiro de grãos de café moído, de bolo no forno, de terra molhada. Os aromas e sabores faziam então parte das nossas descobertas, daquele mundo desconhecido a ser explorado. Nada era impossível, tudo tinha mais frescor. Lembro do cheiro daquela flor que tinha no jardim de casa chamada Dama da Noite, que só se abria ao anoitecer. Será que éramos mais inocentes, menos ansiosos, menos indiferentes, mais felizes? Não sei. Só sei que nem o cheiro cotidiano do asfalto, da fumaça, do ar condicionado apagaram as melhores lembranças olfativas.

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O tempo líquido escorreu pelos dedos da memória E derramou rastros sensorias pelo caminho Levou de volta para a inocência dos aromas Sabor de escarlate suculento perdeu seu perfume de criança O natal, terra molhada, mato cortado As manhãs, o café, o bolo no forno, a flor da noite As lembranças na ponta do nariz


Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta..
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