por trás do espelho

reflexões involuntárias

Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta.

A efemeridade da vida na poesia de John Keats

Em um tempo em que tudo precisa ser muito rápido e que logo será esquecido, em que tentamos resgatar a intensidade das emoções enterradas na aridez do cotidiano, a poesia em suas mais variadas formas é o que costuma nos trazer um ar fresco para aliviar a alma. O amor e a beleza na poesia de John Keats estão além da imaginação e das fronteiras do tempo.


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John Keats nasceu em Londres em 1795 e morreu em Roma em 1821. Teve uma vida breve e intensa, morreu com apenas 25 anos de tuberculose. Sua vida também foi marcada pela tragédia familiar, seu pai morreu quando ele tinha 8 anos e a doença também matou sua mãe e seu irmão. Apesar da insegurança financeira, Keats abandonou uma carreira promissora na medicina depois de muitos anos de estudo, para se dedicar à poesia.

Nos últimos meses de vida, John Keats foi para a Itália na tentativa de melhorar os sintomas da tuberculose, deixando para trás a noiva Fanny Brawne e sabendo que não voltaria mais. A história do romance obsessivo e da forte paixão entre os dois que dura apenas três anos, subitamente interrompida com a morte de Keats, é contada no filme “Brilho de Uma Paixão” produzido em 2009. filmes_756_Brilho de Uma Paixao 1.jpg Filme "Brilho de uma Paixão" - história de amor real entre John Keats e Fanny Brawne

Keats parece ter sido bastante influenciado pela poesia grega clássica e algumas de suas poesias como “La Belle Dame sans Merci” e “Isabella or the Pot of Basil” tiveram grande influência sobre diversos grupos de artistas, entre eles a Irmandade Pré-Rafaelita e os simbolistas. No século XXI, as odes de Keats permanecem uma grande influência sobre escritores e críticos como as enigmáticas estrofes de encerramento de “Ode sobre uma urna grega” que lembram o poeta grego Píndaro em “Sonho de Uma Sombra.”

Trecho de “Ode sobre uma urna grega” (tradução de Augusto de Campos) Ática forma! Altivo porte! Em tua trama Homens de mármore e mulheres emolduras Como galhos de floresta e palmilhada grama: Tu, forma silenciosa, a mente nos torturas Tal como a eternidade: Fria Pastoral! Quando a idade apagar toda a atual grandeza, Tu ficarás, em meio às dores dos demais, Amiga, a redizer o dístico imortal: “A beleza é a verdade, a verdade a beleza” - É tudo o que há para saber, e nada mais.

John Keats estabeleceu relações com outros autores e importantes figuras da cultura na época, como Percy Shelley, poeta e marido da escritora gótica Mary Shelley - lembram do filme “O Frankenstein de Mary Shelley?”. Foi lembrado pelo amigo John Hamilton Reynolds como aquele que teve “o maior poder na poesia, entre todos, desde Shakespeare” e no poema “Adonaïs”, Shelley homenageia John Keats após sua morte.

Trecho de “La belle Dame sans Merci (A Bela Dama sem Piedade)- tradução de Izabella Drumond Eu vi seus lábios famintos e sombrios, Abertos em horríveis avisos, E eu acordei e me encontrei aqui, Nesta fria borda da colina. E este é o motivo pelo qual permaneço aqui Sozinho e vagarosamente passando, Descuidadamente através das sebes às margens do lago, E nenhum pássaro canta Obra de Walter Crane.jpg Obra "La Belle Dame sans Merci" de Walter Crane

“Acho que a poesia deve surpreender por um belo excesso e não pela singularidade – deve atingir o leitor como a formulação de seus mais elevados pensamentos e parecer quase uma lembrança. Se a poesia não surgir tão naturalmente quanto as folhas em uma árvore, é melhor que não apareça mesmo.” John Keats

Trecho de Hyperion (poema inacabado de John Keats) Profunda na tristeza sombra de um vale, Longe afundado a partir da respiração saudável de manhã Longe do meio dia ardente, e estrela de uma véspera Sáb cinza-hair’d Saturno, quieto como uma pedra, Ainda como a rodada de silêncio sobre seu covil

Trecho de Endymion, um dos primeiros livros de poesia de Keats (tradução de Augusto de Campos) O que é belo há de ser eternamente Uma alegria, e há de seguir presente. Não morre; onde quer que a vida breve Nos leve, há de nos dar um sono leve, Cheio de sonhos e de calmo alento. Assim, cabe tecer cada momento Nessa grinalda que nos entretece À terra, apesar da pouca messe De nobres naturezas, das agruras, Das nossas tristes aflições escuras, Das duras dores. Sim, ainda que rara, Algumas forma de beleza aclara As névoas da alma. O sol e a lua estão Luzindo e há sempre uma árvore onde vão Sombrear-se as ovelhas; cravos, cachos De uvas num mundo verde; riachos Que refrescam e o bálsamo da aragem Que ameniza o calor; musgo, folhagem, Campos, aromas, flores, grãos, sementes, E a grandeza do fim que aos imponentes Mortos pensamos recobrir de glória, E os contos encantados na memória: Fonte sem fim dessa imortal bebida Que vem dos céus e alenta a nossa vida Selene - deusa grega da Lua e Endymion.JPG Selene - deusa grega da Lua e o pastor Endymion


Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta..
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