por trás do espelho

reflexões involuntárias

Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta.

A Morte, a coragem, a covardia, e a roubadora de livros

“A Menina que Roubava Livros”. Há muito tempo queria ler este livro, mas depois foram aparecendo tantos outros que este foi ficando para trás. Finalmente nos encontramos.


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Eu sempre gostei de boas histórias, de ficção ou não. E toda vez que leio uma história, meu maior prazer é a empatia, me colocar no lugar dos personagens e experimentar os mesmos sentimentos. Gosto dessa sensação de me imaginar vivendo outras vidas em outros tempos e lugares.

Interessante que neste livro o narrador é nada mais nada menos que a Morte. Pode-se dizer que não poderia existir melhor narrador naquele momento da história, onde a morte rondava uma boa parte do mundo e era possível sentir seu cheiro no ar, vê-la nos rostos sobressaltados na expectativa de encontrá-la a qualquer momento. A Morte estava o tempo todo vigilante, tinha muito trabalho a fazer: recolher almas que íam surgindo aos montes. Mas antes mesmo da sua chegada, para muitos a vida já agonizava na forma de racionamento e portanto, de miséria. A menina que roubava livros2.jpg

Durante o regime nazista, a maioria dos alemães apoiava Hitler, alguns sem nem saber direito porque, mas uma minoria não o apoiava. E os que não o apoiavam, se descobertos, teriam o mesmo fim dos outros, da escória.

Liesel é uma menina alemã vivendo durante o governo de Hitler e sua alma alçava vôos pelas páginas dos livros surrupiados. O primeiro veio da neve, o segundo veio do fogo, de uma fogueira para queimar livros proibidos. E as dores do mundo já cabiam em sua rua na sua cidadezinha.

A mãe de Liesel, não podendo cuidar dela e do irmão menor, leva os dois para uma família criar. Durante a viagem de trem, o irmão já doente morre, e é enterrado no caminho. Na volta do enterro, um dos coveiros que ainda é um aprendiz da profissão, deixa cair um livro sobre a neve. A menina que a tudo observa, pega aquele livro de capa preta e letras prateadas, e guarda sem que ninguém veja; ela ainda nem sabe ler. O nome do livro: Manual do Coveiro. Foi seu primeiro livro. A-menina-que-roubava-livros-572x250.jpg

A menina, depois do sofrimento inicial, foi aos poucos percebendo que seus pais de criação; ela uma dona de casa que lavava e passava para fora, ele um pintor de paredes que nas horas vagas tocava acordeão, e que já tinham os filhos crescidos que não viviam mais com eles; eram pessoas bondosas.

Mas é daquele tipo de bondade despretenciosa, traduzida por generosidade e compaixão naturais, que não espera aplausos. Um deles era de uma bondade tranquilizadora onde você busca abrigo quando quer proteção e consolo. O outro era de uma bondade explosiva, mas que aflorava nos momentos de crise.

Mas a essência era a mesma, e ambos sabiam que algo estava muito fora de lugar. Esse tipo de bondade tanto quanto seu oposto, quando aparece, não escolhe a raça, o credo, o sexo ou o nível social. Mas não se engane, a bondade não é algo que se manifeste como unanimidade. a-menina-que-roubava-livros.jpg

Seus pais de criação tinham uma bondade capaz de colocar em risco suas vidas, mantendo um judeu escondido em casa para cumprir uma promessa feita há muitos anos atrás para a mãe dele, durante a primeira guerra. Mas esse tipo de desprendimento requer uma outra coisa: coragem.

Uma grande ironia: o filho dos pais de criação de Liesel era membro do partido nazista, e não se conformava com o fato do pai não ter se empenhado para entrar no partido, e numa discussão na última vez que veio visitá-los, o chamou de covarde.

Eis a receita para dominar a mente de um povo: Uma boa crise economica social Um bode expiatório Um líder enlouquecido e bom de discurso Uma boa aparelhagem de propaganda

É assustador pensar que ainda hoje esta receita possa produzir resultados parecidos, ou até quem sabe piores.


Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta..
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