por trás do espelho

reflexões involuntárias

Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta.

Eu, Jun Do e George Orwell

Jun Do é um personagem fictício que dá título a um livro de Adam Johnson, George Orwell é um escritor que todo mundo conhece ou já ouviu falar. Jun Do nasceu na Coréia do Norte, George Orwell era inglês, e eu sou alguém que nasceu no Brasil, mas poderia ter nascido em qualquer outro lugar.


especial1.jpg Estátua de Kim II Sung pai de Kim Jong II

Jund Do nasceu num país comunista, o mais fechado do mundo, e para todos os efeitos era um órfão, mas na verdade ele tinha um pai. Sua mãe fora sequestrada pelo regime e seu pai era o homem que cuidava do abrigo de órfãos, único trabalho que ele tinha para sustentar o filho e única forma que tinha para ficar perto do filho, mas fora isso, ele devia ser tratado como os demais e também como eles, devia ter um nome de órfão, Jun Do na tradução para o português significa “João Ninguém”.

Foi quando entrei para a escola que fui percebendo onde eu me situava no mundo, primeiro aprendi coisas sobre o meu bairro, depois sobre a minha cidade e assim por diante, até chegar ao planeta e ao sistema solar ao qual pertenço. Antes o mundo para mim se resumia na minha casa e no máximo nas ruas da minha cidade. Naquele tempo não havia internet e poucos tinham um aparelho de TV, portanto demorava um pouco para você descobrir que o mundo era muito maior do que aquele que você via todos os dias.

O nome da casa de órfãos de Jun Do era o Longo Amanhã, o nome é bonito, mas não se enganem, aquilo era apenas mais um dos disfarces do regime de Kim Jong ll, o Querido Líder. As crianças eram eliminadas aos poucos, submetidas a trabalhos pesados e insalubres e mal alimentadas. Também, conforme a versão oficial, os velhos ao se aposentarem eram enviados para uma linda praia a fim de gozarem um merecido descanso no final de suas vidas. Todo mundo sabia que não era verdade, mas ninguém ousava falar nada, até mesmo pensar era perigoso. O Querido Líder se auto proclama um Deus e por toda a cidade se pode ver grandes imagens em estátuas ou outdoors com sua foto que cada cidadão também deve ter em sua casa e reverenciar, e alto falantes espalhados por toda parte repetem sem parar mensagens do Querido Líder e propagandas do regime. É preciso agradecer todos os dias pela cota diária de ração e pela sua benevolência.

Na escola quando eu era criança o Brasil vivia a ditadura militar, mas eu nem sabia o que era isso e uma das coisas que eu mais gostava era aquela cerimônia de todos os sábados, quando antes da aula as crianças se reuniam no pátio para hastear a bandeira e cantar o hino nacional. Eu era uma criança patriota. Só mais tarde vim a saber o que acontecia naqueles tempos. É muito fácil direcionar uma criança para onde se quer, fazê-la pensar que o mundo em que ela vive é o melhor dos mundos ou que a vida é assim mesmo. Ditadura-no-Brasil (1).jpg Regime Militar no Brasil

Jun Do nasceu num país que parece ter saído da história de ficção “1984” de George Orwell escrita em 1948, que na época falava como a alta tecnologia poderia ser usada por estados totalitários para facilitar o controle dos seus cidadãos, e convenhamos que foi uma profecia para as sociedades contemporâneas. Mas um tirano nem precisa de muita tecnologia, basta manter o povo cativo, assustado, com fome, premiar a delação entre os cidadãos, punir alguns para exemplo dos demais e impedi-los de ter contato com outras culturas. O Querido Líder escrevia ele mesmo os livros e os roteiros de filmes da Coréia do Norte, os únicos permitidos. 13210270.jpg Cena de "1984" de George Orwell

Durante minhas descobertas sobre onde eu me situava, aprendi o que era uma sociedade e o que ela esperava de mim, era alguma coisa para a qual eu devia prestar contas e com a qual precisava me amoldar para ser aceita, e que toda sociedade tinha uma engrenagem complicada para fazê-la funcionar chamada “política” e algo chamado regime de governo. No começo acreditava em tudo que aprendia e procurava fazer tudo como mandava o figurino, mas com o tempo algo começou a me incomodar e comecei a duvidar de coisas que haviam me ensinado, se estavam mesmo corretas, se era só aquilo mesmo, e assim foram surgindo muitas perguntas que ninguém respondia. Fui então procurar respostas nos livros e entre enganos e acertos, achei algumas e outras não.

Depois de uma grande onda de fome durante o inverno e quando acabaram-se as esperanças, o Chefe do Orfanato queimou os alojamentos e restaram apenas 12 meninos, que como acontecia com quase todos os meninos órfãos, foram mandados para o exército, e assim foi também com Jun Do, o filho do Chefe do Orfanato. E uma vez no exército Jun Do devia aceitar a missão que lhe fosse incumbida, e uma delas foi a de Sequestrador profissional. Sim, lá existia a profissão de Sequestrador assim como a de Torturador, atividades necessárias para a segurança da Nação devidamente institucionalizadas, porém nas sombras. Reconhecido por sua lealdade e seus instintos apurados, Jun Do passa a chamar a atenção dos superiores do Estado e alcança posições cada vez mais importantes, até partir para um caminho sem volta e cair em desgraça. korea1.jpg Passeata em Pyongyang para celebrar o lançamento de um satélite da Coréia do Norte no espaço Quando entrei para a faculdade, o Brasil já estava em fase de transição política, mas minhas dúvidas permaneciam e queria saber qual era o meu papel no meio disso tudo. Foi então que comecei a ouvir sobre igualdade de classes e justiça social, e confesso que no início achei as intenções muito nobres e até cheguei a me entusiasmar. Mas havia algo por trás daquele tom doutrinário que eu ainda não conseguia captar bem, que me deixava inquieta. Para defender sua dignidade, Jun Do uma vez teve que matar um homem, um criminoso do regime alçado a categoria de herói, e então assumiu sua identidade. Agora ele tinha uma. Mas lá ninguém tem nada seu, nem uma identidade, nem uma história, praticam a lobotomia em massa, o Estado se sobrepõe ao indivíduo e o Estado é a própria pessoa de Kim Jong II, onipresente e onisciente. Nas palavras de Jun Do, “na Coréia do Norte você não nascia: você era feito.”

Um dia os animais de uma granja no interior da Inglaterra se revoltam contra o tratamento que recebem do dono e liderados pelos porcos fazem uma revolução para se libertar dos humanos e assumir a fazenda. No início tudo parece correr bem até que saborear o poder começa a produzir seus efeitos: mentiras, trapaças, ganância, assassinatos, acordos com os antigos inimigos, até o ponto de não se saber mais quem era quem. “Não havia dúvida, agora, quanto ao que sucedera à fisionomia dos porcos. As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já se tornara impossível distinguir quem era homem, quem era porco.” Os animais então perceberam que haviam trocado uma tirania pela outra. nick14.jpg Cena da "Revolução dos Bichos" de George Orwell

George Orwell em “1984” alerta sobre o eminente perigo do poder de controle nas mãos de um indivíduo ou de um grupo; na “Revolução dos Bichos” denuncia no que se transformaram as ideias de igualdade, depois que chegaram ao poder. A cena alusiva e familiar da reunião dos porcos com os humanos continua tão atual quanto comum. Jun Do havia sido treinado no exército para suportar a dor e se calara todo o tempo sobre seu destino cruel e sobre o mesmo destino que havia dado às outras pessoas, e não sabia bem quem era, mas ele não era aquilo, não era aquele lugar. Quanto a mim, havia descoberto ainda na juventude, que não desejava nenhuma forma de tirania.


Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta..
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