por trás do espelho

reflexões involuntárias

Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta.

A vaidade nossa de cada dia

A vaidade tão comum à espécie humana , foi a causa da tragédia de Narciso na mitologia grega, se encontra entre os 7 pecados capitais, é citada em obras de autores famosos, merecedora de análises e ensaios de comportamento, e há tempos nas modernas sociedades de consumo, foi descoberta pela publicidade como poderosa ferramenta da psicologia.


narciso_caravagio.jpg Narciso de Caravaggio

Da natureza humana, a vaidade é um dos vícios mais famosos e contraditórios. Algumas pessoas a assumem, outras a negam, mas o fato é que a vaidade é inerente a toda personalidade. Ao que tudo indica o ser humano é o único animal vaidoso porque é o único que tem consciência de si mesmo. Mas estariam as sociedades modernas criando gerações de narcisistas? Basta olhar os reality shows e as redes sociais. Vivemos em tempos de “amai a si próprio sob todas as coisas.”

É certo que se enfeitar para si e para os outros é um ritual humano que se encontra em todas as culturas desde a ancestralidade, e tem a ver com a nossa auto estima. Porém, há tempos a vaidade deixou os limites do mero comportamento biológico e tornou-se o principal ingrediente na ditadura do culto à aparência, um imperativo poderoso que produziu até doenças psíquicas que em outros tempos nunca se ouvia falar, e faz com que pessoas transformem o corpo até deformá-lo. Oscar Wilde já no século 19 em sua obra O retrato de Dorian Gray abordava o culto à beleza e sua efemeridade. Num diálogo entre Dorian Gray e seu amigo Lorde Henry, dizia: “A beleza, a verdadeira beleza, acaba onde principia a expressão inteligente. A beleza é uma forma de gênio...mais elevada que o gênio, pois dispensa explicação”, ironiza Lorde Henry. “O senhor dispõe só de alguns anos para viver deveras, perfeitamente, plenamente. Quando a mocidade passar, a sua beleza irá com ela; então o senhor descobrirá que já não o aguardam triunfos, ou que só lhe restam as vitórias medíocres que a recordação do passado tornará mais amargas que destroçadas.” dorian-gray-2.jpg Imagem da obra O retrato de Dorian Gray

A vaidade gera às vezes o filhote perverso da ganância, que levará ao desejo incontrolável pelo poder, pela fama e por dinheiro, e a não ter medidas para obtê-los; tudo para alimentá-la, e quanto mais a alimento maior ela fica. É um narcisismo doentio que já não me deixa perceber o outro. Estamos cheios de exemplos na política, nas mídias e em todas as instituições públicas ou privadas. Nietzsche com sua contundência dizia que “a vaidade dos outros só vai contra o nosso gosto quando vai contra a nossa vaidade.”

Para a escritora Jane Austen, a vaidade e o orgulho são coisas diferentes, embora as palavras sejam frequentemente usadas como sinônimos. Uma pessoa pode ser orgulhosa sem ser vaidosa. O orgulho estaria mais relacionado com a opinião que temos de nós mesmos, e a vaidade, com o que desejaríamos que os outros pensassem de nós. O orgulho estaria assim muito mais associado à dignidade pessoal. No entanto parece haver uma fronteira tênue entre uma coisa e outra. Onde começa o orgulho e termina a vaidade e vice versa? Como dosar, como equilibrar a vaidade para não perder a noção da realidade e a percepção do próximo?

olhar o passado.jpg

Talvez tenha mesmo fundamento a expressão: “vaidade da vaidade, sempre vaidade, tudo é vaidade.” Dorian Gray diz que entregaria até a alma para eternizar sua beleza e juventude, se por um milagre se desse o contrário e a imagem do retrato fosse envelhecendo e ele permanecesse jovem para sempre.


Eli Boscatto

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