por trás do espelho

reflexões involuntárias

Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta.

A Felicidade em Perspectiva

Tenho notado nos últimos tempos, especialmente por causa da morte frequente de personalidades do mundo da música, muito se falar sobre a depressão, já chamada de o mal do século XXI, e que ainda pode atingir 30% da população mundial.


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O conceito de felicidade é muito elástico, mudando de tempos em tempos, de cultura para cultura, de indivíduo para indivíduo, e sobre a pergunta clássica o que é felicidade, não há respostas definitivas. Sabe-se que ela é tão passageira quanto a tristeza. Felicidade e tristeza convivem quase que simultaneamente, hora uma entrando em cena, hora outra. Quando crianças somos felizes porque nada ainda foi descoberto e algumas vezes olhando de fora julgamos que alguém tem tudo para ser infeliz e no entanto, vive cheio de alegria, em outras podemos jurar que uma pessoa tem tudo para ser feliz, e não é.

Se pensarmos que a vida que levamos é só aquilo, e que o mundo é só aquele em que nascemos, vivemos e morremos, podemos dizer que somos felizes. Se ignoramos que existem outros lugares, outras formas de se viver, outras ideias, outras possibilidades, não aspiramos nada além do que já foi previsto para nós, e portanto não sofremos. Podemos concluir daí que também se é feliz na ignorância, e até nos perguntar se o conhecimento traria mesmo felicidade. Na verdade o conhecimento pode nos trazer certo sofrimento quando não podemos mudar o estado das coisas, quando descobrimos a nossa impotência diante dos fatos da vida e do mundo. E nos apresenta mais perguntas do que respostas, quanto maior o conhecimento, menores as certezas. Mas a grande felicidade que o conhecimento nos proporciona é a noção de uma liberdade intrínseca que ninguém pode nos tirar. pensativo.jpeg

Nos dias atuais é curioso notar como não podemos ficar tristes. É quase obrigação estar sempre feliz. Esta imposição meio velada faz com que façamos de tudo para parecer todo o tempo contentes. Se você não está feliz, pode comprar a felicidade no shopping mais próximo, no bar, na balada, na esquina. E não há “felicidade” que chegue. Nosso índice medidor de felicidade está diretamente relacionado ao nosso poder de consumo. Se antes éramos felizes porque tínhamos um aparelho de TV e um telefone, hoje somos felizes porque temos um iphone e um ipad. Pode-se pressupor então que quem não tem esse poder de aquisição é infeliz. Vale lembrar que essa imposição acompanha o mito do vencedor. A obrigação de mostrar ao mundo que somos bem sucedidos em tudo: na cama, no trabalho, na vida social. www.suportedamente.blogspot.com.jpg

Parece que a humanidade nunca buscou tanto a felicidade quanto nos dias de hoje, deve ser este o motivo de tanto sucesso na literatura de auto-ajuda. Precisamos de receitas e conselhos para ser feliz. Não nos basta aquela felicidade simples e descomplicada comum à todos e que está logo ali à mão, porque esta felicidade caminha ao lado da tristeza e a tristeza não pode se avizinhar de nós, dar sinais de aproximação.

Deve ser essa a causa de outro grande sucesso da era contemporânea: a depressão. Ficamos vulneráveis à depressão, talvez um efeito colateral dessa felicidade forçada e plastificada que após ter seu efeito cessado, nos deixa sozinhos e mais frustrados. Nunca ficar triste é antinatural, a tristeza faz parte da vida e não deixá-la fluir deve mesmo adoecer a alma.


Eli Boscatto

Formada em Ciências Políticas e Sociais, curiosa, inquieta, adora se emocionar. Pretensa poeta..
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